quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

GENTALHA

E os nossos deputados federais e senadores, quem diria...Não foi nem na calada da noite, mas à luz do dia, em tempo recorde, que encaminharam e aprovaram em intervalo de dois turnos o aumento dos próprios vencimentos à ordem de 61%. Por menos, muito menos, um presidente neste país sofreu impeachment. Onde estão os caras pintadas ? Onde estamos nós, que a tudo isso assistimos impassíveis, por vezes até achando graça ? As revoluções iniciam assim, com o a desfaçatez dos governantes e membros dos poderes, com o abuso exacerbado da paciência do povo até que de nada adianta mandar-lhe brioches. Depois das eleições é que se conhecem os políticos. Gentalha !

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Fracasso em Abu Dhabi ?

Como gremista, fico triste de ver que meus colegas de torcida secaram o Internacional na partida decisiva do mundial de clubes esta tarde, quando o Inter perdeu para o time do Congo defendendo, não as cores do Rio Grande do Sul, mas as da América Latina. Aqui a mesquinhez grassa, o que explica, em parte, o complexo de inferioridade misturado a uma certa arrogância dos gaúchos. A coisa já vem mal desde o nosso hino onde se canta ( on vante ) " Sirvam nossas façanhas de modelo a toda a terra ". Maldita mania. Pior que esta, só a que joga sobre o técnico toda a culpa do mundo, como se joga merda na Geni. Os nossos fracassos passam a ser o fracasso do outro, assim, num passe de mágica. E tudo recomeça. E se repete.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

NOSSA NOVA LÍNGUA

Eu vinha cedo de Pelotas num ônibus confortável que me permitia pregar o olho de vez em quando. Foi numa dessas intermitências do sono que vislumbrei, já quase chegando a Porto Alegre, uma placa sobre um terreno vazio na qual estava escrito Our Roads. Logo abaixo vinha a tradução: Nossas Estradas. E como o ônibus seguia viagem a uns 100 Km por hora, não tive tempo de me acordar bem para melhor ler ou entender do que se tratava. Talvez um empreendimento o que ficara para trás, uma simples estrada sendo aberta da rodovia para os interiores de Guaíba. Mas foi a tradução o que mais me impressionou. Ora, para que usar termos em inglês num local em que as pessoas não dominam essa língua nem sequer para entender o significado de Our Roads, isso que não é nem uma frase já que não tem verbo ? Eu sei que já se escreveu muito sobre o tema, mas o uso contínuo do inglês em nomes e títulos, procedimentos, condomínios, alimentos e no que mais se imagine, está chegando a um esgotamento tal, uma coisa - eu diria, com o perdão da palavra -, uma coisa quase over. Para designarem-se prédios de escritórios, usa-se Offices; para nomearem-se residências, opta-se por Residences; há muito o termo Shopping Center ( que aqui já não necessita ser em itálico ) não se conhece por outro nome em nossa própria língua. Já imaginaram alguém perguntando:- Onde fica o Centro de Compras Iguatemi ? E por aí vai. Não posso deixar de creditar esta prática a um complexo de inferioridade que nos obriga a copiar o “charme” da plástica Miami, paraíso modelar da mais fina breguice. E a língua tem que ser o inglês, claro; ninguém se atreveria a usar o alemão onde Nossas Estradas seria traduzido por Unsere Straßen, Residências ficaria Wohnungen e Escritórios seria Büros. Nada disso seria minimamente comercial. E por que não ? Pela primazia da língua americana como idioma universal ? Americana, e não inglesa, quero enfatizar, porque isso é influência histórica da alta tecnologia de consumo que nos oferece a América do Norte. Essa influência foi sendo instilada aos poucos e hoje é como um sinal de nascença que está no DNA de qualquer criança de quase qualquer lugar da América do Sul. Será bom isso ? Há gente que arrisca dizer que esta influência é coisa do Demo. Afinal, por que não usar-se o francês, língua tão mais elegante ? Por que não o italiano, o mais romântico e sensual dos idiomas ? Bem, esqueçamos o alemão e o japonês. Mas será que um dia nosso dicionário Houaiss será tão outro ? Em Portugal, banheiro é quarto de banho e táxi continua sendo carro de praça, assim como era na minha infância. Mouse, esta coisinha que a gente usa sobre o pad, é, literalmente, rato. Aqui diríamos “dê duas clicadas com o mouse para deletar”. Lá em Portugal eles dizem “dê dois toques no rato para apagar” Eis aí algumas considerações que se impõem quando paramos para pensar num assunto que faz alguns anos preocupava a França em seu orgulho quase napoleônico: a influência nefasta dos idiomas estrangeiros sobre a língua de Voltaire. Fizeram de tudo para evitar as influências. Queriam abolir o hotdog e o cheeseburger. Conseguiram, quando muito, manter a palavra ordinateur no lugar de computer. No resto de nada adiantou: foram vencidos. Coisas do Demo...
A todos vocês, caros leitores, Merry Christmas and a Happy New Year ! Quero dizer: Feliz Natal e Próspero Ano Novo !

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

sábado, 9 de outubro de 2010

PAROLE, PAROLE, PAROLE...

Dizia um padre de minha escola ginasial católica, em Porto Alegre, que o Titanic teria afundado por uma única razão: a de apregoar-se que, sendo o mais rápido, o mais moderno e o maior navio de sua época, construído pela melhor tecnologia de até então, nem mesmo Deus poderia afundá-lo. Pois o Titanic foi a pique na primeira viagem, apesar do poderoso nome que portava, levando a bordo os blasfemos que desdenharam o poder divino. A Igreja ( e hoje todas as Igrejas ) sempre desempenhou papel fundamental no curso dos acontecimentos do mundo, sobretudo pelos presságios de que foi porta-voz. E hoje nos vemos diante do segundo turno da eleição presidencial de um país continental como o Brasil, onde a opinião do clero pode outra vez pesar. Mas, será mesmo ? Os candidatos, ambos de qualidades particularmente raras – e não necessariamente antagônicas – passaram a versar sobre temas religiosos, assim como outros de caráter ambientalista, preocupações acalentadas desde a tenra infância de ambos, como jocosamente se comenta. No primeiro caso, para aplacar a revolta das Igrejas católica e evangélicas, que são terminantemente contra o aborto, e, no segundo, para amealhar aqueles preciosos votos de Marina Silva, candidata que surpreendeu o mundo com a força de um discurso franco e ambientalista. Como se a decisão estivesse aí definida. Não está. É triste ver assuntos que realmente possam importar ao país, ou que sejam basilares ao discernimento dos eleitores, estarem à margem dos debates fundamentais. E os eleitores sabem. Que Dilma e Serra sejam a favor da vida, não restam dúvidas. Quem seria contra a vida ? Mas será que vão continuar batendo nesta tecla surrada ? E será também que dizer ser contra o aborto não tenha lá as suas desvantagens ? Há gente que não vota em quem seja contra o aborto. Talvez esgote-se este assunto a tempo, e possamos adentrar outras discussões mais palatáveis, mas será que em pouco menos de vinte dias ( data em que escrevo este artigo e até a qual o Usina do Porto talvez ainda não esteja nas ruas ) terão os candidatos tido pelo menos o tempo para exporem suas efetivas idéias de maneira concreta ? Eu fico aqui pensando como a disputa de um cargo de tal importância possa tornar-se refém de perigosas manobras de marketing. Sim, porque não se pense que o candidato vá lá de frente às câmeras e abra o seu coração vulnerável aos ataques do adversário. Não, isso é claro que não. Os candidatos, sob tal pressão da panela de expectativa do poder, usam muito mais do que a maquiagem improvisada nos camarins das emissoras. Eles usam gestos, roupas especialmente estudadas, e sorrisos, até mesmo se até ontem não sorrissem, para tornarem-se - aos olhos menos atentos – outras pessoas. E é entre essas que devemos escolher uma para ocupar a presidência da República. Dizem que brasileiro não sabe votar. Grande ilusão. Vejam os tais fichas-sujas, que ficaram em sua maioria de fora da escolha das urnas. Observe-se a recomposição do Senado Federal ( aquela casa da Mãe Joana ) de onde quase oitenta por cento de seus ocupantes terão deixar seus gabinetes para gente nova. Sangue novo, e provavelmente menos contaminado por estes vícios antigos de nossa política brasileira. O eleitor não está propriamente preocupado com o aborto, ou com a questão ambiental, embora estes itens sejam de fato importantes, mas não o suficiente para decidir um pleito desta magnitude. Será que os candidatos não pensam nisso ? E querem governar um país do tamanho do nosso ? O que esperam os eleitores são propostas de fundamento, e não promessas ao vento, como bolsas-isso, bolsas-aquilo, quase sempre esquecidas após a apuração dos votos. Seja o que Deus quiser, Ele saberá escolher.

domingo, 3 de outubro de 2010

Carta que escrevi no jornal de cultura Usina do Porto, em 2003

Esta carta está relacionada à postagem anterior.

Senhora:

Analisando bem, o seu problema pode estar no sapato. Verifique isso. Talvez ele não lhe aperte o pé, mas, com certeza, o salto de seu sapato é muito alto, e isso tende a desestabilizá-la. Pessoas como a senhora, apesar de sua inteligência, charme e escolaridade, por vezes não podem ver uma coisa tão simples como essa, a menos que se disponham a colocar-se de lado e observar a altura do salto do sapato em frente ao mesmo espelho que reflete ainda a beleza de sua juventude. A senhora, sim, é jovem, é bonita, além de competente e bem intencionada, quero crer. Mas o seu problema é o salto. Ele é alto, ele é desproporcional aos nossos olhos que não descolam deste detalhe enquanto a senhora fala meneando a cabeça em garbosos gestos que ninguém gosta de ver. E assim, a tudo que possa a senhora querer dizer, as pessoas não dão importância, ou não entendem, porque ficam fixadas na altura do salto de seu sapato, dispersando a atenção que deveriam dar-lhe. Saiba, senhora, - se me permite dizê-lo -, a gente daqui é muito simples, algumas até preconceituosas em relação a estrangeiros, o que em nada é louvável – suponho -, mas, ainda assim, a gente daqui sente um certo orgulho de suas façanhas que servem de modelo a toda a terra, tirante esses últimos acontecimentos que têm assolado a nossa honra. Se pudesse dar-lhe um conselho sincero e amigo, eu diria à senhora para calçar outro tipo de sapato. Talvez não lhe parecesse tão elegante à primeira vista, assim que a senhora se mirasse no espelho, mas tal providência, ao aparentemente diminuir sua estatura física, aumentaria a humana, colocando-a no mesmo nível de nossos olhos, assim como gostaríamos de falar com nossos interlocutores, isto é, sem termos de elevar a cabeça como se a eleva a deus que – seja ele qual for –, não pertence a este reino da Província de São Pedro. Faça o teste, senhora, e verá que posso ter alguma razão no que lhe escrevo. A senhora então sentirá certo alívio, parecerá navegar nas nuvens, estará bem mais confortável, tudo sorrirá à sua volta. Os inimigos passarão a respeitá-la, ao invés de tão somente criticá-la. Os amigos serão mais amigos, e os falsos cessarão o fogo-amigo. Faça o teste, senhora, um sapato com salto mais baixo – providência tão simples - lhe fará muito bem.
Respeitosamente, o seu sapateiro.

Resposta a e-mail de uma amiga

Bia querida:

Já votei, e meus vaticínios se confirmaram.
Tarso aqui e segundo turno lá.
Só errei nos números entre Serra e Dilma, uma diferença que diminuiu muito do que diziam estas pesquisas terríveis e- creio que em alguns casos – manipuladas.
Sabia que a Marina iria puxar votos para o segundo turno. É uma pessoa de muito valor, como se vê em sua cara limpa.
Só que o Serra vai ter que sair do túmulo para tentar vencer a Dilma, que, mesmo decaindo por conta de tantos escândalos, sapato alto, etc., ainda vai contar com a milagrosa força do Lula.
Serra tem que fazer umas aulas de expressão corporal com o Plínio Arruda Sampaio, que ao menos sabe ser simpático.
Mas agora é outra eleição. Vamos ver...
Aqui, fico feliz pelo menos por que tiramos a Yeda, uma senhora que, mesmo tendo feito algumas coisas de mérito, enterrou a cultura do RS, minha área, que espero o PT possa vir a salvar.
E o pior é que ela cuspiu nos pratos em que comeu: primeiro no do Rigotto, graças a quem ela foi eleita ( lembras ? ), depois no do PMDB como um todo, através de francos ataques de campanha contra seus antecessores de todos os partidos e de todas as gestões. E eu não aceito pessoas mal agradecidas e, sobretudo, traidoras.
Yeda é um exemplo de como a arrogância pode colocar um projeto a perder-se por conta de seu protagonista.
Agora pode ser que ela seja eleita síndica de seu prédio.
Bjs.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Por que os artistas devem dar seu trabalho de graça

Achei interessante este texto do Marcelo Spalding, criador do site www.aristasgauchos.com.br, de grande sucesso entre nós. Pedi a ele autorização para reproduzi-lo aqui.


Sabe quanto um escritor ganha quando um livro seu é vendido? No melhor dos casos, 10%. Digamos R$ 3,00. Sabe quantos livros um autor vende por ano. Sendo otimista, mil livros. Bem otimista. Agora faça as contas: R$ 3000,00 por ano é suficiente para alguém viver da venda de livros? Não, decididamente não. Aí as alternativas são procurar um emprego “decente”, ter uns 50 livros publicados e em catálogo ou continuar dando murro em ponta de faca. E, em todos os casos, reclamando que o brasileiro não lê, que o governo não incentiva, etc, etc, etc.

Esse cenário, com uma ou outra variação, é o mesmo para todas as artes: um artista médio, competente mas não midiaticamente reconhecido, não tem espaço para seu trabalho e é muito mal remunerado por ele. A questão é: será um problema de mercado, do artista ou do sistema? Excluindo-se os casos em que é problema do artista, entre o mercado e o sistema eu diria que o problema é do sistema.

Dizem que o brasileiro não lê, mas você sabia que o Brasil é um dos dez países que mais vendem livros no mundo? Metade são livros didáticos, metade da metade são best-sellers e ainda tem os de auto-ajuda e espiritualidade. Além disso, pesquisas indicam que o brasileiro lê menos de três livros por ano. Três! Ou seja, nossa grande missão é, também, fazer com que as pessoas leiam mais (problema de marcado), mas o principal é fazer com que as pessoas leiam os nossos livros, e não os best-sellers (um problema de sistema).

Para a livraria e para a editora o melhor é que eles leiam o best-seller. Sai mais barato para eles imprimirem e a margem de lucro é muito maior. Então nossa única saída, na impossibilidade de fazermos um best-seller, é sair desse sistema.

Há vinte anos isso seriam absolutamente difícil, embora ainda assim possível, e que os digam os poetas marginais. Mas hoje, com a internet, temos uma grande oportunidade de estreitarmos nossa relação com o leitor e tirarmos os intermediários da jogada, criando uma vantagem competitiva enorme para os nossos livros em relação aos best-sellers.

Chris Anderson, em seu livro A Cauda Longa, afirma que se a indústria do entretenimento no século XX baseava-se em hits, a do século XXI se concentrará com a mesma intensidade em nichos: "Os consumidores estão mergulhando de cabeça nos catálogos, para vasculhar a longa lista de títulos disponíveis, muito além do que é oferecido na Blockbuster Video e na Tower Records. E quanto mais descobrem, mais gostam da novidade. À medida que se afastam dos caminhos conhecidos, concluem aos poucos que suas preferências não são tão convencionais quanto supunham (ou foram induzidos a acreditar pelo marketing, pela cultura de hits ou simplesmente pela falta de alternativas." (p. 15)

Dessa forma, é mais provável que um potencial leitor de seu livro o encontre navegando na internet do que passeando numa livraria. Muito mais provável. E nesse sentido não surpreende que muitos escritores estejam disponibilizando sua obra toda, de graça, em sites e blogs, numa última e desesperada tentativa de fazer circular algo que lhes deu tanto trabalho, e às vezes custou tanto dinheiro. E adianta? Sim e não.

Realmente o usuário que entrar em seu site ou blog, se identificar com a sua temática ou conhecer você terá a curiosidade de baixar o livro e talvez até leia alguma coisa. Mas para você ter mais acessos é preciso algum tipo de divulgação, investir nisso, e para fazer qualquer investimento, por menor que seja, é preciso dinheiro, que acaba não entrando quando você disponibiliza de graça o livro. Ou seja, é pior que os R$ 3,00 do modelo tradicional, supondo que você ainda consiga vender algo no modelo tradicional.

Um princípio de resposta pode estar em outro livro de Chris Anderson, Free: o futuro dos preços (Elsevier, 2009, 270 p.). O autor traz entrevistas, dados, episódios históricos e atuais para mostrar que os preços no mercado digital estão caindo tanto que logo chegarão a zero, e viveremos uma economia do Grátis. Só que isso, ao invés de apavorar quem atua nesse mercado está se mostrando extremamente lucrativo: as empresas estão ganhando ainda mais dinheiro com isso (basta vermos o Google).

No que tange à livros, Anderson dá alguns exemplos, entre eles o de Paulo Coelho, que brigou com sua editora para colocar seu livro mais popular, O Alquimista, no BitTorrent, gerando um renovado interesse pelo autor e transformando seu novo lançamento em um sucesso de vendas maior ainda (livro que, aliás, também está disponibilizado no BitTorrent). Anderson cita ainda um autor menos conhecido, que disponibilizou seu livro para download e colocou ao lado um link para doações voluntárias no PayPal: “das aproximadamente 8 mil pessoas que baixaram o livro, cerca de 6% pagaram, com preço médio de U$ 4,20)”.

O modelo mais completo de negócios para livros (e para artes) que o autor apresenta é do Flat World Knowledge, que disponibiliza a versão digital de TODOS os seus livros gratuitamente. E como eles vivem? Vendendo livros ou capítulos do livro impressos, versão em PDF imprimível, audiolivro em MP3, e-book para e-readers e por aí vai. Isso sem contar as palestras para as quais os autores são chamados, e que rendem muito mais do que a venda de 100 livros em livrarias.

Ao final Anderson irá ressaltar que “dar o que você faz não o tornará rico; você precisa pensar com criatividade em como converter a reputação e atenção que pode obter com o Grátis em dinheiro”. Mas, acrescento eu, às vezes é muito melhor não ganhar nada do que ganhar quase nada, como ocorrem com nossos contratos com as editoras (isso quando não pagamos para editar nossos livros). Porque não esqueça que ao ser editado por uma editora você cedeu os direitos sobre seu texto para ela, e às vezes teria sido muito mais lucrativo ter esse texto contemplado num concurso literário de sua cidade, inscrito em alguma lei de incentivo ou patrocinado por uma empresa privada em busca de estratégias de investimento em cultura.

Ou seja, caro artista, não tenha vergonha de dar seu trabalho de graça. Não todo ele, parte dele. Descubra qual parte você pode abrir ao seu público a fim de cativá-lo para que ele aí sim compre a outra parte, seja algum lançamento, uma versão impressa do livro, uma palestra ou show, uma camiseta autografada. O que não podemos é permanecer refém daqueles que não querem nos vender, preferem vender os best-sellers a nós, e ainda culpam disso o leitor, que sequer teve a chance de nos conhecer.

Afinal, votar em quem ?

Este período que vem antecedendo as eleições de domingo próximo termina por ensinar várias lições. Lições antigas, mas nunca antes absorvidas em tempos de sufrágio. Num país acostumado à pouca popularidade de seus presidentes anteriores, a maior parte dos candidatos se “encostaram” na imagem do Lula, utilizando todos os meios possíveis, dos santinhos aos vídeos na TV, para angariar votos pelo efeito de osmose. Para os candidatos da situação isso ajudou. E muito. Para os de oposição foi um desastre facilmente previsível, mas que políticos oportunistas desdenhavam em seus discursos vazios. E tem sido assim que o eleitor, driblando a hipocrisia dos partidos, de suas coligações e de seus fisiologismos, dá sua resposta nas pesquisas. É por isso, por exemplo, que a Marina Silva subiu e o Serra baixou. A Marina pode ter um discurso ingênuo como o de uma freira, mas apresenta credibilidade em suas aparições, e fala coisas novas. O Serra pode ter a melhor das boas vontades, pode ser honesto e competente - como creio que seja -, mas não assumiu o discurso que lhe cabia: o discurso da oposição. O Brasil de hoje não tem mais oposição, e aqueles que a fazem sistematicamente sem apresentar propostas, são os mesmos que, ao mesmo tempo, na perspectiva confortável de conseguir votos a partir da popularidade do Lula, não se posicionam. Uma análise brilhante e bem concreta sobre este assunto foi feita pelo pensador e cientista político Demétrio Magnoli, há poucos dias num programa chamado Roda Viva. Ele dizia que em vez de Serra ressaltar que o Real foi cria do PSDB do Fernando Henrique, preferiu sublinhar que, se eleito for, vai dar continuidade aos programas do atual governo, tais como o bolsa-família, o bolsa-creche, o bolsa-não-sei-mais-o-quê... Ora, o eleitor deve pensar o seguinte: se o cara não tem mais nada a apresentar de novidade, e apenas vai dar continuidade ao que aí está, por que razão vou votar nele ? Prefiro um pássaro na mão a “meio” voando. A única chance concreta de que este discurso pudesse dar certo seria se ele viesse de alguém mais bonito do que o Lula, alguém mais sedutor, pelo menos. Mas, neste caso, o Serra, que é um homem que não ri, sempre naquela camisa azul de campanha, e nem um pouco sedutor, está longe de cativar votos. As pesquisas mostram no que está dando esta estratégia burra de campanha. Já vou dizendo que o meu voto é de Serra, mas que ele tem errado, ah, isso tem.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Bom senso prevalece

A Comunidade européia move contra Sarkozy uma moçao de censura, que poderá ter outros desdobramentos, em relação à expulsão de etnias ciganas da França. Ocorre que estes ciganos, provenientes dos paises do Leste europeu, também pertencem à Comunidade, independente de seus hábitos e pretensas atitudes no julgamento de Sarkozy. Acho que esta moção é fundamental para que não venham a prevalecer outros crimes contra a Humanidade, dentre os quais o banimento de cidadaos.

domingo, 5 de setembro de 2010

VALE-TUDO

De eleições brasileiras, sabemos todos, pode-se esperar de tudo. Na década de cinquenta, quando ainda não havia a cédula eletrônica e o eleitor escrevia sobre um papel próprio o nome do candidato de sua preferência, o “candidato” Cacareco, que era um hipopótamo do Zoológico de São Paulo, arrebanhou cerca de 100.000 votos, numa clara manifestação do desgosto popular quanto ao baixo nível dos candidatos. Foi assim mesmo, alguém lançou Cacareco a vereador e ele obteve mais votos do que o segundo candidato colocado, este autorizado, com cerca de 95.000. Passados mais de cinqüenta anos, nem tanto mudou nas cenas dos sucessivos sufrágios. Não bastasse sermos obrigados a conviver com o horário político obrigatório pela TV e pelo rádio, e assim nos darmos conta do grau de mediocridade de tantos candidatos que em pouco estarão sentados lá nas câmaras dos representantes do povo, somos ainda obrigados a votar. E com a desvantagem de não podermos, por via eletrônica, expressar nossas reais opiniões sobre o grande circo eleitoral, por exemplo, preferindo o Cacareco a tantas nulidades. E escrevo isso com certa vergonha, porque na realidade nunca anulei voto, nunca votei em branco e sei que somos responsáveis por nossas escolhas, mesmo que dentre elas figure um Cacareco. Mas o pior desta vez leva outro nome. Chama-se promiscuidade. Explico com a ajuda do Dicionário Houaiss, que entre outras definições mais conhecidas aponta para aquela que designa: 2. mistura confusa, desordenada. Chegamos ao ponto que passou do vira-casaca, figura tão conhecida da política, quando um candidato sai da extrema esquerda para a extrema direita, ou desta para aquela, indo assim, do zero ao infinito, como numa mera equação de cálculo integral e diferencial. Agora alguns candidatos, ancorados em duplicidades ideológicas - acendem simultaneamente uma vela ao santo e outra ao diabo, as duas no mesmo castiçal da incoerência. Quase todos interessadas na carona da influência da marola do presidente brasileiro - queira-se ou não - com forte aprovação popular. Os que não estão nesta barca - porque por coerência não poderiam estar - singram na nau dos desesperados. E a baixaria dos palanques assume níveis já antes vistos, mas desta vez de ambos os lados beirando a insensatez de quem acusa e a cara de pau de quem nega. É para isso que servem os dossiês que estão a merecer neste país de língua portuguesa um novo significado. E la nave và. Quanto à imprensa, é difícil encontrar um jornal ou uma revista que não expresse sua preferência por a ou por b de forma escancarada. Em alguns casos vergonhosamente, desdenhando a sabedoria do povo, omitindo notícias relevantes ou fortalecendo a invenção de outras de seu interesse próprio. Articulistas brilhantes emprestam seus talentos ao jogo sujo da promiscuidade, às vezes extrapolando vias racionais usualmente aceitas pelo bom senso comum. Então, seja qual for o resultado, tudo voltará ao statu quo ante, porque isso faz parte do jogo depois da tempestade. E la nave và...

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Crença em Deus

A única dúvida que tenho em relação a Deus, que fez as coisas todas perfeitas, é a complexidade construtiva e quase contradizente da arcada dentária do homem.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Pesquisas Eleitorais

A propósito de pesquisas, nunca é tarde para se aprender lições. A primeira é de que, em determinado instante, elas não erram, pois baseiam-se numa ciência que, apesar do que muitos pensam, não é nenhum achômetro. Chama-se Estatística, e é do ramo dos conhecimentos exatos. A segunda é de que, em nenhum instante, podemos nelas assentar as garantias de um fundamento certo e duradouro, pois que as pesquisas não pensam, não falam e não vêem. Apenas interpretam o que está no ar, inexoravelmente. Quando se falava em Dilma para presidente, há mais ou menos um ano, o assunto provocava risos. Ela estava lá embaixo nas pesquisas. Serra, lá em cima, imbatível. Pois está dando diferente agora, embora qualquer peça do destino possa ainda reverter um quadro difícil de ser mudado. Já vimos isso tantas vezes, aqui no Rio Grande do Sul em particular, quando Yeda saiu com uns cinco pontos no início das cotações dos institutos de pesquisas e chegou ao segundo turno. E venceu. Agora ela não passa dos quinze pontos, enquanto Tarso subiu e Fogaça se manteve e Yeda baixou. Os candidatos – e lembro do Brizola, em especial – têm a virtude ( ? ) de desdenhar as pesquisas quando estas mostram um quadro adverso a eles, e de assegurar a sua exatidão quando indicam que eles estão na frente. Na verdade, o que as pesquisas dizem é o que está na cabeça das gentes. E as gentes, como se diz, são volúveis – até voláteis em alguns casos. A um mês das eleições no país, muitas coisas estarão em jogo: da preferência do eleitor através do discernimento dele produzido no horário eleitoral pela TV e rádio ( uma praga bem brasileira ) às agressões comuns e odiosas dos que estão embaixo nas pesquisas, cujos discursos presenciamos por tais meios de comunicação. Se pudesse dar um conselho, diria: - Confie em pesquisas, mas não esqueça de avaliar os candidatos antes que as estatísticas assumam o lugar de seu raciocínio.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Lembranças de Paris

Encontrei, em meio a coisas que escrevo quando viajo, um pequeno texto, provavelmente produzido num bistrô qualquer após o jantar e uma garrafa de vinho em novembro de 2005. Tem a ver com estas expulsões absurdas de estrangeiros, pelo presidente Sarkozy, um pequeno da política européia.

" Sob um frio intenso e ao sabor do vento génant, os parisienses fazem pouco das condições climáticas para viver o que na verdade está dentro deles: a liberdade, a civilidade e, é claro, o charme. Em Saint Germain de Prés, na frente da igreja, uma banda de estudantes, provavelmente universitários, fazem a alegria dos turistas e dos nativos da cidade. Mães desfilam com seus bebês empacotados em roupas e metidos em sleeping bags e com gorrinhos de lã. Tudo se move rápido aqui. Paris não descansa, e por isso jamais morrerá. Mas tem um custo alto para os que estão sós. A solidão. Paris tem este dom inverso, o de desmanchar a oportunidade da alegria para o viajante solitário. É uma cidade em que não se pode estar só. É talvez a mais dura cidade para se viver em tal condição. Nada resolve este drama, nem mesmo a noção de civilidade e de urbanidade, que em parte alguma do mundo se conhece como aqui. Hoje, no metrô, entrou um jovem carregando o lastro de uma cama de solteiro, algo em torno de 1,80m por 0,90m. Como eu estava no final do vagão, encostado à parede, ofereci a ele o lugar para apoiar aquela peça. Ele me agradeceu e seguiu o meu conselho. Onde se vê isso ? O mais importante é que ninguém deu bola para o fato. Porque há gente que carrega malas, carrinhos, carroças, até. E ninguém se apercebe dos fatos que, afinal, à Paris, estão longe de ser insólitos. É que, na alma de um provinciano do RS, mesmo viajado como eu, remanesce esta parcela atávica de uma consideração sobre estes fatos que dos vivem na metrópole como se dela se nutrem. Bicicletas presas aos ferros nas entradas dos metrôs, carros estacionados em parte sobre as calçadas, gente fumando nos ambientes internos, combinações sobre regras e planos atávicos, sem palavra, sem gesto, mas apenas com o franco desejo de liberdade. Só em Paris. A mesma Paris que depois de reconstruída pelos imigrantes, sobretudo os pieds-noirs, deseja pela via política expulsá-los, não mais da cidade, mas do país em que se encontra a cidade luz. Sempre encontram motivos e razoes inexplicáveis, e inaceditáveis. Saudades de Miterrand, o Napoleão de nosso século, construtor dos monumentos dos museus, dos símbolos da pátria livre e aberta para um mundo universal".

domingo, 22 de agosto de 2010

SARKOZY ATACA, OUTRA VEZ

Mais uma vez, Sarkozy tenta desviar a atenção, dos franceses e do mundo, de seu governo maculado por algumas falcatruas. Desta feita, expulsou ciganos do país, em mais uma manifestaçao de inegável racismo. Talvez esta notícia, alvissareira para um certo grupo da França ( Le Pen e seu séquito, por exemplo ), consiga ocupar páginas de jornais que deveriam estampar o envolvimento de seu Ministro Eric Woerth e a mulher mais rica do país, Liliane Bettencourt em negociatas de privilégios esoeciais. Vale lembrar que Hitler considerava os ciganos e os negros, além dos judeus, é claro, pessoas indignas de habitarem a Alemanha. Sarkozy - que é judeu - percorre agora o mesmo caminho do ditador. Como diria Appolinaire, "les jours s'en vont, je demeure ". É uma possível leitura do refrão de " Le Pont Mirabeau ", considerada a interpretação ao pé da letra.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

mil desculpas

Caros amigos blogueiros:
Peço desculpas por minha ausência. Estou com um trabalho intenso que deve terminar neste final de semana e prometo retornas às atividades na semana próxima.
Abraços a todos.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

segunda-feira, 26 de julho de 2010

A moral de cuecas

Com sessenta anos na cuca, não imaginava que ainda teríamos censura na TV. Pois é. Durante o período que antecede três meses às eleições de outubro, fica vedado fazer gracinhas sobre candidatos a cargos políticos pela TV. Já não bastava sermos obrigados a assistir a estas apresentações invasivas de programas eleitorais em nossas casas, e agora vem a tal lei da mordaça. Dizem que é em nome da equidade. Pois em nome da equidade, rasga-se uma página da Constituição e suprime-se um bem maior, o da liberdade de expressão, pois humor é, antes de tudo, liberdade de expressão. Foi o humor que salvou muita gente fadada à depressão. Além disso, ficamos sem opções para compensar essas torturas, como podíamos fazer assistindo a programas cômicos que, ao menos, nos divertiam.

BRASIL, SEMPRE PIADAS

A semana começa bem com a notícia de que há um projeto tramitando na Câmara e no Senado, pelo qual “a todo brasileiro ficará assegurado o direito à felicidade ”. Ora, vejam só se isto é motivo para se colocar no papel por escrito. Felicidade é direito de todo homem em qualquer lugar do mundo. Verdade que uma multidão de seres humanos não é feliz, mas não pela falta de um decreto. Mais um decreto. O Senador Cristóvão Buarque, a quem eu admiro por ser o nosso Don Quixote da educação, é favorável, e diz por quê. Porque é um direito do brasileiro e porque outros países como os Estados Unidos têm a mesma lei. Baita explicação. Para um energúmeno, evidentemente, pois sabemos que lá nos Estados Unidos, como na Bélgica, na Alemanha e em tantos outros lugares, estas coisas escritas são prá valer. Assim, alhures, quando está escrito que a todo o cidadão caberá aposentadoria digna, educação e saúde, estas são premissas comprometidas e honradas por governos sérios. Agora, aqui, onde já está escrito na Constituição Federal que educação, saúde e outras obviedades, são direitos do cidadão, isso simplesmente não funciona. Não que fosse errado assegurar estes direitos por lei, mas porque os que já existem no papel são ignorados na realidade. Estes decretos nascidos de ufanismo inconseqüente são, ademais, marcas registradas de políticos que despontam oportunamente mostrando serviço em tempos de sufrágio. Eles gozam da nossa cara graças ao nosso modo passivo em relação a eles. Esta é a piada da semana. Aguardem que logo vem mais.

domingo, 25 de julho de 2010

OS HÁBITOS DOS OUTROS

No centro da recente polêmica sobre a proibição de burcas e afins reside um resíduo de autoritarismo inexplicável para os padrões de regras de convivência da sociedade global. Sobretudo quando esta referência abrange os países europeus como um todo. A mesma França que valeu-se da mão de obra barata e conveniente vinda da Argélia em tempos de reconstrução no pós-guerra, esta mesma França, agora, anos depois e sem nenhuma reflexão memorial agradecida, se imiscui na cultura do islamismo proibindo o uso do véu. Pois foram os islâmicos que de forma particular, contribuíram para o reerguimento de países europeus dizimados pela Segunda Guerra. Antes ainda, à época das colonizações, foram pobres imigrantes em busca de melhores condições de vida que passaram a ocupar postos menos dignos da força de trabalho, situação que desde sempre tem perdurado a olhos nus na Inglaterra, sobretudo no caso dos indianos vistos a varrer corredores de aeroportos, e africanos em banheiros públicos parisienses, também atendidos por faxineiros de outras etnias. Nestes mictórios onde fedemos todos igualmente, só não se encontram franceses. Proibir o uso da burca e do simples véu (e eu não defendo a sua conveniência quanto à estética, mas tampouco posso crer que unicamente sejam usados por expressas ordens de maridos cruéis ), me parece algo inconstitucional em qualquer país democrático que se digne a rechaçar ondas autoritárias. Seria como proibir aos judeus ortodoxos de usar aqueles trajes e chapéus pretos, e aqueles cachos ( visivelmente ridículos aos olhos contemporâneos ), e mais ainda, de fazer com que seus filhos usem indumentária assemelhada. Será que estas crianças de livre vontade se vestiriam assim ? Trata-se de culturas diversas que em qualquer lugar do mundo deveriam ser respeitadas como tradições milenares que são. O mundo não nasceu na Europa e não surgiu da América, disso todos sabemos. Não há explicação justa para tais proibições. A sensatez, entretanto, ensina que há pontos de vista diferenciados sobre a matéria. O Ministro inglês da Imigração, Damian Green, em entrevista ao “Daily Telegraph ”, na contra-mão desta ignomínia discriminatória, afirma que “ dizer às pessoas o que elas podem ou não podem usar, se elas estão apenas andando nas ruas, seria algo não britânico.” Uma digna lição de civilidade, I suppose.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

PERVERSAS POSTAGENS

Diariamente recebo e-mails com mensagens sobre crianças desaparecidas, bebês com doenças irreversíveis de nascença, pedidos de ajuda urgentes, etc. Em geral, abrindo-os, aparece uma foto referente ao assunto e logo depois outra solicitação para navegar na internet com vistas a ajudar no caso. A questão é: abrir ou não abrir estes anexos ? Confesso que eu não os abro. Nunca. Mas cada vez que isso acontece,me dá uma dor no coração, me vem um chamado à consciência perguntando se não estou sendo duro ou insensível a uma causa pública da maior grandeza. Então o momento passa, tudo volta à normalidade até que, novamente, outra mensagem chega. E a história se repete. O receio está na ameaça de vírus que são diariamente criados por mentes perversas que, numa brincadeira ingênua ou num ato intencional de má fé terminam por criar um desserviço às causas humanitárias, ao exercício livre da cidadania e da compaixão pelo outro. Fico a pensar como podem existir estas pessoas. Assim como outras que ligam canais de emergência para anunciar incêndios, acidentes e outros casos inexistentes que demandam dispêndio de energia e de dinheiro público e privado, e que por vezes resultam em falta de atendimento a outros eventos que por estas mesmas razões tornam-se fatais. E pensando mais adiante me pergunto como não conseguimos estancar, pela via da tecnologia ( já que pela da índole humana a História já provou que somos incapazes ) o avanço desta praga imiscuída na ferramenta moderna e quase vital que se tornou a Web. Então eu me encontro impotente e desumano. E não abro mensagens dentre as quais haveria com certeza muitas a que eu poderia atender como uma gota de água no oceano.

DA SÉRIE “PRESIDENCIÁVEIS”

Imaginem todos que somente um dos presidenciáveis ( aliás, uma, a Marina Silva ) apresentou a documentação completa exigida pelo TSE na inscrição da chapa. Fosse o caso de um candidato a vestibular, por exemplo, seria eliminado. A pergunta que faço é a seguinte: Como alguém que pretende dirigir um país continental como o Brasil, ou mesmo uma republiqueta de bananas, pode esquecer um detalhe como este ? Como pode ? Pois bem, aqui no Brasil, ao lado de tantas outras coisas menores, pode-se, sim, esquecer detalhes que montam a dimensão da responsabilidade de intenções de um candidato à presidência do país. Quem cuida destes detalhes das candidaturas ? Ou o que faltou no prazo exigido a oito candidatos na inscrição da disputa ao cargo de mandatário da nação, representante de todos nós ? Este fato pode ser o sinalizador de futuras atitudes, de cuidados com a coisa pública, de desvelo profissional. Enfim, um item que deve ser analisado com maior cuidado pelos eleitores.

COPA DO MUNDO E PACOTES DE BONDADES

Nunca antes na história deste país temos visto tanta disponibilidade na liberação de recursos os mais variados visando à Copa do Mundo de 2014. Num repente, aeroportos serão ampliados, hospitais reformados ou construídos, vias pública duplicadas, tudo, enfim, será feito e resolvido. A pergunta que se faz é a seguinte: por que tais recursos só aparecem agora como num toque de mágica que tira o coelho da cartola ? A resposta óbvia é que estamos em ano eleitoral, ocasião propícia para àqueles que detêm o poder, diferentemente do que recomendava Maquiavel, distribuir “pacotes de bondades” estocados e amadurecidos como bons vinhos durante a safra da gestão pública e só revelados na hora extrema, ou seja no período pré-eleitoral. Então cabe perguntar por que tais recursos não eram disponíveis antes. A resposta óbvia é de que esta técnica, assemelhada àquela do bode na sala ( primeiro a gente põe o bode, e depois, quando todos reclamam do cheiro a gente o retira ) visa a dar a impressão de que somente após duros anos de administração pública desta ou daquela ala da vez, conseguiu-se “sanar” a economia, o equilíbrio entre receita e despesa, estas coisas óbvias das quais devem entender todas as donas de casa que vão aos supermercados. E estas coisas, que não deveriam ser em nada diferentes, tanto na área privada como na pública, convencem qualquer dona de casa. Em São Paulo, o governador e o prefeito fecharam os cofres às obras de um estádio especial para sediar a Copa de 2014. Ponto para estes senhores que acompanhados de um tristonho Ricardo Teixeira numa entrevista pública ( parecia que ele tinha perdido algum parente próximo naquela hora ), distribuíram publicamente não as boas notícias da praxe das promessas vãs, mas um sonoro NÃO a um investimento que teria utilidade durante trinta dias de 2014 e depois...e depois para quê, ou melhor dizendo, para quem ? Num país de tantas mazelas, cujo governo jacta-se de feitos extraordinários enquanto o déficit da previdência recrudesce como uma doença silenciosa ( poucas pessoas estão atentas a isso ), somente para citar um exemplo mais consistente, estas distribuições de bondades deveriam ser permanentes, deveriam, ainda que menores, ser administradas não como concessões patriarcais, mas como prática saudável de administração do erário.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

quarta-feira, 14 de julho de 2010

QUEM NÃO LEVOU UM TAPA, ATIRE A PRIMEIRA PEDRA

Se entendi bem, nosso presidente Lula não tem mais nada a fazer senão aguardar o término de seu mandato enquanto fica brincando. Talvez, neste caso, porque tenha sido ele mesmo objeto de agressões por seu pai na infância – conforme filme que conta sua biografia –, acaba de assinar proposta que prevê punição para pais que aplicarem castigos físicos em seus filhos. Até aí, num sentido amplo, nada contra. Mas é que fica proibido até mesmo o tapa, sim, aquele tapa, aquele cascudo que a gente dá com vontade vez que outra quando o filho não desiste de sua impertinência. Vencida a força e o argumento da voz de comando dos pais, resta o tapa. Quantos tapas foram necessários para forjar a boa educação dos filhos ? E agora esta frescura de que não se pode dar um simples tapa. Trata-se de uma invasão de privacidade da educação, pois nem todos os pais são os mesmos, e nem todos os filhos são iguais. Há coisas que não podem ser regradas por leis escritas sobre papel e que devem ser administradas segundo o bom senso e sem exageros.

E O DIVÓRCIO, QUEM DIRIA, FOI PARAR...

Quando eu casei pela primeira vez, em 1975, havia uma forte campanha contra o projeto de Lei do Deputado Nelson Carneiro instituindo o divórcio no Brasil. Campanha da Igreja, é claro. Para se flexibilizar o projeto, atenuou-se nele o que se pôde, até que ele foi aprovado com algumas ressalvas, sobretudo no que dia respeito a um período de três longos anos durante os quais os divorciandos ( pois este seria o termo apropriado ) poderiam refletir sobre o passo que haviam dado. Aprovada a Lei, logo, logo a foram flexibilizando, até que em 1988, pela Constituinte, entrou a figura da união estável, o que refletiu nos valores tradicionais do casamento e suscitou novos protestos. De lá para cá, a coisa ficou solta. Tão solta que esta semana foi aprovada uma lei que permite ao casal o divórcio já no dia seguinte. Uma espécie de rito sumário. E aqui eu vou dar o meu palpite: embora favorável ao divórcio, acho que estes passos mais recentes em relação à separação definitiva acabaram por banalizar o casamento. E o próprio divórcio. Ah, eu acho que estou ficando velho...

domingo, 11 de julho de 2010

VALEU, ESPANHA !

 
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E VIVA ESPANHA !

Para citar uma máxima do ex-deputado Jefferson já nem me lembro do quê, a Holanda despertou em mim os mais primitivos instintos. Em outras palavras, queria que eles se danassem. Não foram eles que desclassificaram o Brasil ? Como desejar a vitória deles neste caso particular em que jogariam contra um país latino ? Por isso torci pela Espanha, o que me parece óbvio ter acontecido à maior parte dos brasileiros. O posto, assim, é meio óbvio, mas é tudo o que posso fazer hoje depois de um jogo emocionante em que prevaleceu tradição e muita justiça.

terça-feira, 6 de julho de 2010

BRAVO, CELESTE !

 
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Adeus, Celeste

Para quem viu, foi espetáculo à parte a atuação do Uruguai contra a Holanda esta tarde. Embora tenha a Holanda ganho o jogo, a mim não pairam dúvidas sobre a superioridade do Uruguai e, em especial, sobre a bravura da equipe que, perdendo de 3x 1 quase no fim do segundo tempo fez mais um gol e ameaçou os cús-vermelhos a ponto de aterrorizá-los. Brava, equipe celeste, esperança dos uruguaios e dos brasileiros e dos sulamericanos ( tenho dúvidas quanto aos argentinos. O Uruguai hoje, de qualquer sorte, lavou a alma de um povo que, segundo galeano, é um povo feito de futebol.

Dona Yeda, sempre de salto alto...

A governadora Yeda Crusius confirmou presença ao debate na Rádio Gaúcha com demais candidatos à governança do Rio Grande do Sul. Entretanto, não compareceu, dando péssimo exemplo - bem ao seu jeito conhecido - de arrogância e impertinência. O que não se sabe é se ela tem medo de debater ou se julga-se acima dos demais candidatos, a ponto de ignorar a agenda pré-estabelecida. A senhora não tira o salto, acreditando que vale a pena continuar vendo tudo de cima.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

CLAUDIO MENEGHETTI SELECIONADO

As fotos abaixo compõem uma série intitulada "Autoestima ", trabalho do fotógrafo brasileiro Cláudio Meneghetti, que atua em Porto Alegre. Tive o prazer e a honra de ser o curador de uma mostra de fotógrafos brasileiros na França, da qual ele foi especial participante. Meneghetti foi o único artista sulamericano a ser escolhido para expor no Festival da Guatemala, conforme release abaixo, com texto de Paula Teitelbaum.

Em sua primeira edição, o GuatePhoto Festival celebra a fotografia contemporânea, buscando criar um panorama dos talentos locais e promover junto à comunidade internacional uma oportunidade de trocar idéias e discutir as novas tendencias da fotografia.

Dentro da programação do festival, a exposição principal conta com a presença do fotógrafo gaúcho Claudio Meneghetti. Mais conhecido como fotógrafo publicitário, Meneghetti apresentará seu trabalho autoral “Autoestima”, produzido em agosto de 2009, para a exposição coletiva “11 Photographes Brésiliens”, exibida na Galerie D`Art François Mansart, em Paris, sob curadoria de Paulo Amaral.

“Autoestima” foi um dos 15 trabalhos escolhidos em uma seleção que envolveu mais de 400 inscritos de 47 países. A série de fotos de Claudio Meneghetti é o única da América do Sul a constar na exposição.

O GuatePhoto Festival acontecerá de 6 à 31 de julho no Museu de Arte Contemporânea Carlos Márida, na cidade da Guatemala.


Autoestima

Em seu silêncio, as fotos de Claudio Meneghetti falam. Ou melhor, murmuram. E contam, com sua série de sutilezas, que é possível enxergar, ao mesmo tempo, o antes e o depois. Antes: a fome, o frio, a sujeira, o cansaço, a falta de rumo. Depois: a comida, o banho, a cama, o amor-próprio.

Seus personagens, moradores de rua de Porto Alegre, expressam a delicada – mas não menos severa – mudança que vem quando a autoestima é estimulada. São efígies que se formam num ensaio repleto de sombra e luz. Da sombra do abandono à luz do encontro.

Capturados de forma espontânea e natural, os modelos aqui são pessoas que vivem à margem: sob viadutos, marquises e o peso do preconceito. Claudio Meneghetti os fotografou ao chegarem nas entidades assistenciais – famintos, cansados, perdidos – e após receberem assistência. E, assim, eternizou a tênue linha que resgata a dignidade e o respeito. Perpetuando a vida que, por passar num piscar de diafragma, merece um olhar mais atento.


Paula Teitelbaum

AUTOESTIMA, de Cláudio Meneghetti

 
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domingo, 4 de julho de 2010

de Paulo Amaral

 
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E A VIDA CONTINUA...

Dessculpem os amigos que me visitam no Blog. Estive fora do ar por alguns dias. Passada a Copa ( porque para mim já está passada ), tento tirar algumas lições dela.
Primeiramente, não temos que vencer sempre. Se vencêssemos sempre não seria necessário fazer uma Copa para conhecer o vencedor. Óbvio. Em segundo lugar, há algumas coisas positivas em nossa derrota, e isso cada um lê como deseja. Por exemplo, passamos a trabalhar e a viver normalmente, o comércio retoma as atividades. Para quem não gosta de argentinos, viu-se a seleção do Maradona desclassificar-se depois das tantas bravatas tão peculiares àquele povo. Para quem gosta dos uruguaios, ainda há esperanças de que a Copa seja vencida por algum time sulamericano ( nunca se sabe quem vai vencer, por isso é que existe a Copa ). No plano político, para quem não gosta da Dilma, fica o alívio de que ela não vai faturar politicamenbte os louros secos de uma derrota. Para quem ama o Serra, ele fica com a vantagem de dizer que escolheram o time errado. E assim por diante, vamos tecendo uma corrente infindável de argumentos vazios e consistentes ao mesmo tempo.Simples coisas que nos ocupam. Isso é Copa. O resto é o silêncio das malditas vuvuzelas.

terça-feira, 29 de junho de 2010

O Japão em seus pés

Pena mesmo tenho do Komano,que errando uma cobrança de pênalti entregou os doces pro Paraguai. Jogadores que passam por isso com certeza não dormem por algumas noites. Mas - como se diz nestes momentos em que nada mais pode ser dito - o que fazer ? Foi bravo o Japão, como sempre foi em sua história. Já ter chegado à Copa do Mundo foi uma grande vitória. Sayonara e Arigatô !

MEU DEUS, O QUE FOI QUE EU FIZ ???

 
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EL MATADOR

 
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COENTRÃO

Não adianta ter um bom tempero se faltam ingredientes. É o que se pode falar em torno deste grande jogador de Portugal, o Coentrão. A equipe portuguesa é boa mesmo, mas, frente à Espanha, tinha mais que cair. Herói da partida, para mim, nem foi o Villa, autor daquele gol espanhol marcado sob a égide do impedimento. Herói foi o goleiro português, defensor de todas as bolas pretensamente certeiras.That's the guy ! A Espanha jogou muito, mas muito bem. Foi o melhor de todos os jogos, data venia os advogados de plantão e os rábulas, como eu. Eu rezo para não termos de enfrentá-la.

Deus é sul-americano

 
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IRONIAS DO ESPORTE BRETÃO

Pois nem sempre quem ganha quem joga melhor. Futebol tem essas coisas da sorte, da boa e da má. Pois o Paraguai foi visivelmente inferior ao Japão - esta a minha opinião - e ainda assim levou a melhor nos pênaltis, já que um artilheiro japonês errou a bola na sua vez de chutar. Um erro fatal como aquele na final de uma antiga Copa em que um italiano cometeu o mesmo erro. Na hora dos pênaltis, as atenções ficam todas concentradas nos goleiros, como se eles fossem ser os heróis da decisão. Ledo engano que aqui mais uma vez comprovou não ser a regra. Os goleiros não defenderam. O artilheiro errou e c'est fini. Se há quem diga que Deus é brasileiro, não sei mesmo se pode ser. Mas sul-americano ele é, sem dúvida. Até aqui.

Saramago, ainda

Ateu convicto, Saramago deixou esta frase única:
"Entrarei no nada e me dissolverei em átomos "

SORRIA, VOCÊ ESTÁ VENCENDO !

 
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ALÍVIO EM PEQUENAS DOSES

E o Brasil venceu o Chile. Com Robinho e Kaká a seleção readquiriu aquele viço perdido no jogo anterior, contra nossos irmãos portugueses, que de bobos não têm nada. Mas aquele teste foi interessante porque o time brasileiro relativamente desfalcado, e pelo menos empatando com Portugal, uma seleção favorita, prometia jogar bem mais e melhor contra o Chile, seleção mais fraca. Deu 3x0. O que se nota é que reaparece também em nós aquela idéia de um Brasil imbatível no futebol, nasce em nossos rostos o mesmo sorriso estampado em Kaká, Robinho e Luis Fabiano, abraçados em comemoração. Abraçamo-nos nós também diante de tais imagens de otimismo. Agora vamos enfrentar a brilhante tropa batava. Acho que vai dar certo outra vez.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Mas quem ouviria o pastor se não fosse a TV pela qual ele mesmo se projeta ?

Movimento Boicote Rede Globo - Globo Esclarece Sua Missão

Vamos torcer para que não aconteça isso daí abaixo...

Galvão Bueno e Casa Grande - Charge BRASIL X ARGENTINA

Serão os franceses assim ?

A propósito da grosseria que o técnico da equipe francesa de futebol protagonizou diante do treinador do time adversário e vencedor, o nosso Parreiras, e diante de milhões de telespectadores,devo, a bem da verdade, dizer que os franceses não são assim. Pelo contrário, famosos antes por serem descorteses e frios, a principal fonte da economia francesa, o turismo, ensinou aquele povo a tratar bem os estrangeiros, se é que já não o faziam. E isso hoje se percebe na maior parte dos lugares. Infelizmente, o senhor Raymond Domenech, com seu gesto de arrogante superioridade - e não se sabe por quê, já que seu time perdeu - faz ressucitar a hipótese de que os franceses comportam-se como ele. Isto é, conseguiu a um tempo enterrar as esperanças francesas de vitória nesta copa e exibir uma lição equivocada, mesmo diante do técnico Parreiras que com humildade insistia em apertar-lhe a mão num gesto de fraternidade. Na França tem sido este fato o causador de muita vergonha - basta entrar nos sites da imprensa parisiense para ver o que pensam e dizem. Vale lembrar que, apesar da vitória, o time de Parreiras foi igualmente desclassificado, e que este lembrou das lições básicas da fraternidade ( La Fraternité ), símbolo maior da bandeira francesa. Quanto a Domenech, esqueceu-se desta ordem, e de outra, a igualdade dos pares ( L'Égalité ). Lembrou-se apenas de uma, a liberdade ( La Liberté ) de agir conforme seu péssimo e arrogante humor. Repito: os franceses não são Domenech, podem acreditar.

Educação, por favor

 
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quarta-feira, 23 de junho de 2010

Frase de Paulo Maluf, a propósito do "Ficha Limpa "

"Eu tenho a ficha mais limpa deste país. Construí estradas, pontes...",
e por aí foi foi o maior cara-de-pau brasileiro. E sabem no que vai dar ? Eu aposto que em nada, pelo menos por agora. Com o dinheiro que ele amealhou, sabe-se lá como, pode pagar ótimos advogados ou influir mais profundamente ainda...sabe-se lá onde.

Carta a Martha Medeiros

Cara Martha:

Tua crônica de hoje é uma bola, e me fez recordar um episódio semelhante que se passou comigo. Eu estava num vernissage meu, acho que da segunda exposição, quando se acercou de mim um cara que se apresentou: - Muito prazer, Paulo Amaral. Eu pensei que ele fosse louco, mas logo me disse que era o médico cirurgião plástico, o qual, obviamente conhecia tanto pelo nome e por algumas confusões recíprocas, conforme ele também confirmou. Nossos nomes no guia telefônico estavam escritos “Paulo B. Amaral”, o meu B de Brasil e o dele de Becker. Daí a confusão. Na época eu construía muito como empresário da engenharia e as pessoas ligavam para a casa dele perguntando detalhes sobre este ou aquele imóvel, preços, prazos, etc. Naturalmente ele informava que não era o Paulo Amaral engenheiro, mas o médico. Também ligavam para mim algumas senhoras. Uma delas, numa tarde de domingo, enquanto eu preparava uma pizza para a família, se apresentou ao telefone – não lembro que nome disse – e eu fiquei pensando naquele nome que não conhecia. Eu tinha muitos clientes. Mas segui na linha, constrangido por não lembrar o nome de uma cliente, coisa difícil de acontecer. Então ela me perguntou o que poderia comer naquela noite e eu deduzi que ela perguntava sobre a dieta permitida anteriormente a uma cirurgia que faria na manhã seguinte. E como já tinha uma intimidade com o Paulo Amaral médico, respondi a ela que poderia comer uma boa pizza calabresa com muito azeite de oliva e acompanhada de bastante cerveja. Ela me agradeceu e desligamos os telefones. O que aconteceu depois eu não tenho a menor idéia. Meu nome é tão vulgar que – e aqui vai outra parte de história que passei com a tua prima Ana Luiza Zambrano, seu marido Jaime e um grupo de amigos – uma vez fomos a Buenos Aires num grupo, e eu e minha então mulher chegaríamos depois, não lembro por quê. A Ana Luiza, para nos advertir da imprevista mudança de um hotel que tínhamos reservado ( não havia celulares naqueles tempos ), mandou ao aeroporto um emissário daqueles que esperam os viajantes, mas ele não portava uma daquelas plaquinhas habituais. Apenas dizia com uma voz a um tempo grave e estridente:- Señor Amaral, Señor Amaral...Olhei para a minha mulher e disse: - Este cara é louco. E depois nos perdemos em Buenos Aires.

Beijo e abraço.

Paulo

sexta-feira, 18 de junho de 2010

LEGADOS DA ALMA

Com poucas horas de diferença, deixam-nos órfãos José Saramago e Bernardo de Souza. Eu me atrevo a estabelecer entre os dois um paralelo indissociável. Cada um à sua maneira foi alguém que não faltará sempre que desejarmos estabelecer visíveis marcos de coerência. Já era tarde para que Bernardo de Souza, o ser humano e o político, pudesse transpor os umbrais de certa eternidade. Aquela em que vamos – se fizermos jus – fazer repousar o significado da vida que teremos sido, isto é, a existência útil que cresce de nossos bons feitos, de nossas atitudes corretas e, sobretudo, de nossa dignidade. E que depois da morte passa a ser a lembrança digna de ser comemorada como exemplo. Para Bernardo de Souza - como comparou uma amiga comum no velório deste gigante ético -, cujo espírito atento apenas vivia aprisionado a um já corpo inerte, sua vida terá sido apenas uma passagem, pois seu exemplo em todas as áreas pelas quais transitou faz jus àquela certa eternidade. Os homens – diz-se - passam, as instituições ficam. E Bernardo foi uma instituição. Precisarei aqui ater-me a um assunto próprio e único que a Bernardo de Souza valia como profissão de fé: a preservação da cultura como valor inestimável. Foi ele quem primeiramente vislumbrou entre nós o significado que a ela se deveria dar e impor nas lides da política, desenvolvendo ações concretas que resultaram na criação da lei de incentivo à cultura, com maior justiça batizada “ Lei Bernardo de Souza ”. De lá para cá, passados tantos anos, milhares de projetos do setor puderam ser viabilizados, centenas de empregos foram criados e, mais do que tudo, instalou-se entre nós um modelo de pensamento corajoso e capaz de fazer emergir realidades a partir de sonhos que nossa incapacidade de neles acreditar os abandona com a freqüência contumaz de nossa falta de discernimento e vontade de agir. Saramago, por outra razão não muito distante, fundada em sua capacidade de expressar na ficção uma filosofia comparativa sobre os valores das sociedades de sempre, sobretudo as de nossos dias, no que diz respeito à coragem de enfrentar tabus, fez também ele dos sonhos instrumentos necessários às mudanças reclamadas em seu tempo. Enfrentou ditaduras, violências de toda a sorte, pensamentos retrógrados, pacificando, assim, o que todos sabem muito bem como deveria ser feito, mas não têm a coragem de fazer. Dois grandes vultos de nossa história. Um, pelos caminhos da política, dedicou-se às coisas maiores da cultura, tão bem expostas e racionalizadas em seus textos claros, e em seu exemplo cristalino como político. O outro logrou em seus livros execrar, com invejável habilidade e sutileza no manejo da palavra, a censura, a mediocridade, a incapacidade de transformar em riquezas os resíduos oníricos, que são a parte mais rica de qualquer ser humano. Conheci a ambos pessoalmente. Com Saramago, escritor de minha predileção, apenas troquei poucas e inesquecíveis palavras num diálogo de fim de tarde. Mas aquilo teve o peso de uma existência. Com Bernardo de Souza, também conhecido como o pai do Orçamento Participativo, que hoje é modelo de exportação para países do Primeiro Mundo, tive o privilégio de conviver por uma breve temporada quando ele foi prefeito de Pelotas e eu era diretor de um museu. Ambos foram seres únicos e iluminados, ambos foram homens de cultura. Este o paralelo que eu queria demonstrar, como o fundamento de um teorema dedicado à homenagem. Mas com a maior propriedade de que possa ser capaz, diria sem hesitação que a principal característica que os uniu foi a simplicidade.


Paulo César B. do Amaral

de José Saramago

Reproduzo aqui algumas frases de Saramago, em seu último romance, "Caim". São verdadeiras pérolas da língua portuguesa, e mais: são raciocínios mistos de ironia fina e brilhante pragmatismo.

" A história dos homens é a história de seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele ".

" Não é possível que vás fazer uma coisa dessas, senhor, condenar à morte o inocente juntamente com o culpado, desse modo, aos olhos de toda a gente, ser inocente ou culpado seria a mesma coisa, ora, tu, que és o juiz do mundo inteiro, deves ser justo em tuas sentenças. A isto respondeu o senhor, Se eu encontrar na cidade de sodoma cinquenta pessoas que estejam inocentes, perdoarei a toda a cidade em atenção a elas ".

Não pensem que "deus" em minúsculas, assim como "o senhor" ou "sodoma" possam tratar-se de um erro na minha transcrição. Isso é, simplesmente, Saramago.

Este vai fazer falta

 
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EIS O HOMEM

Hoje posso dizer que fiquei órfão. Órfão de José Saramago, o maior escritor contemporâneo da língua portuguesa, aquele com cujo livro anual eu poderia contar, enquanto minha memória saboreava deliciosamente o último. A notícia de sua morte foi um golpe mortal, como aquele que tomou Abel de seu irmão Caim. Caim foi seu último livro, e está em minha prateleira de livros especiais, ao lado direito de outros tantos que li do mesmo autor. Ficará ali para sempre, aguardando a continuação de uma extensa obra.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Uma luz no fim do túnel

Tive a oportunidade hoje de participar de uma entrevista à imprensa dada pelo candidato a governador do Rio Grande do Sul, José Fogaça. Conhecendo-o desde jovem, pois fomos contemporâneos das ruas do bairro Petrópoilis, e das reuniões-dançantes dos anos sessenta, não me surpreendi pela primeira vez - vindo do Fogaça - ouvir da boca de um candidato a qualquer posto um depoimento sobre cultura. O assunto veio a propósito do enfoque que o seu governo deseja imprimir na prestação de serviços. Pois cultura nada mais é do que uma prestaçao de serviços. E serviços essenciais. Fogaça falou mais, citando por duas vezes o item cultura. Falou da importância da cultura desde sempre, e agora ainda mais no mundo contemporâneo que se utiliza das mais modernas ferramentas. Foi a primeira vez que ouvi um candidato ao governo de nosso Estado falar em cultura, em suas possibilidades, em seu planejamento e na importância de seu alcance, sobretudo em um momento em que drasticamente as ações culturais do atual governo não existem sob qualquer política específica, e a cultura, literalmente, sob a égide do Estado, e por influências de conhecidos e não mencionados interesses, levou a derradeira pá de cal, foi fadada ao esquecimento de sua importância. Ainda há tempo de construir uma política cultural para o nosso Estado. Temos que votar na pessoa certa.

Será o fim das vuvuzelas ?

Acredito que nem a derrota da África do Sul hoje vai parar com elas.
E diz-se que elas voltarão com mais força em 2014, na Copa do Mundo do Brasil.
Será que suportaremos isso ?

terça-feira, 15 de junho de 2010

Não durmam em serviço

O resultado da partida entre o Brasil e Coréia do Norte hoje é uma clara advertência de que não se deve menosprezar o adversário, em que pese não ter este maior significância no futebol. Ou melhor, não tinha. Agora tem, e de sobra. Considerando-se o Brasil, com uma história riquíssima nas lides da bola em campo, a Coréia provou ser uma excelente equipe, e eu não arriscaria qualquer erro em dizer que, nesta partida de hoje, foi melhor que o Brasil. Pelo menos fazia o que sabia: correr em campo e impedir que nós ultrapassássemos a sua fortíssima zaga de seis jogadores. Uma muralha, melhor dizendo. E aquele jogador de número 9... o que era aquilo ? Parecia estar numa corrida de cem metros de Olimpíada. Um show. Mas o gol deles veio do número oito. E que gol. Melhor que ele, só o nosso primeiro, do Maicon, na verdade um gol que pôs por terra as leis da física. Mas não durmam em serviço, porque aí vem mais, e todos nós somos filhos de Deus.

João, o Sereno

 
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Maria Fernanda

 
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segunda-feira, 14 de junho de 2010

Mundo pequeno

Numa viagem a Paris, faz alguns anos, por uma dessas oportunidades da sorte que nos acontecem, fui colocado na primeira classe. A ainda linda senhora que está comigo na foto viajou ao meu lado. A foto foi sacada pelo amigo Alfredo Aquino, já na esteira das bagagens. Trocamos poucas palavras em italiano, pois eu pensava que ela era italiana, alguma coisa me dizia. Mas o seu francês era impecável. Então descobri quem ela era, ao perguntar-lhe se era...
Adivinhem quem é. Coloquem as respostas nos COMENTÁRIOS.
Em alguns dias vou dizer quem acertou.

Adivinhem que é.

 
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Ventana Cerrada, de Paulo Amaral

 
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Cometa, de Tatiana Druck

Podes sim beijar na bochecha
somos amigos eternos
eu aceito

Mas também é certo
se chegas mais perto
dá um ralo nas coxas
e mete a mão no meu peito
com todo respeito

de Marguerite Yourcenar, em Memórias de Adriano

" Toda felicidade é uma obra prima: o menor erro a adultera, a menor hesitação a modifica, a menor deselegância a desconfigura, a menor tolice a embrutece ".

sábado, 12 de junho de 2010

JAMAICA

Homenagem a minha querida amiga e escritora Patrícia Bins


Somente o acaso me faria vagar na manhã fria pelas ruas do vilarejo. Depois do café, já fora do hotel, acendi uma das pequenas cigarrilhas que sempre levo para estes momentos curtos e inesperados para saborear o vício sem prejudicar na essência o protocolo dos solitários e discriminados fumadores de charutos. Pus-me a passear pela Pequena Jamaica - o nome do lugar -, que avistara desde o interior do hotel em me haviam colocado, nos arredores do aeroporto após a perda do vôo. Tive curiosidade de andar por ali, algo me chamava. Acho que era o sol. E fui. Tinha vivido na América, fazia muito tempo, e aqueles dias me vieram à lembrança, agora modificada, amadurecida pelas convenções do tempo em mim, adaptada ao que, passados 40 anos, via e sentia à minha volta: o ar frio e seco, as ruas asfaltadas e silenciosas, as flores murchas, cansadas de adornar os jardins formais das casas - estas de Jamaica, simples, mas com automóveis de grife estacionados em seus pátios mal cuidados. Em longos intervalos, surgia solitariamente nalguma esquina um carro em marcha lenta, deixando para trás a fumaça da descarga visivelmente acentuada pelo frio cortante. Jamaica. Era o último dia do ano. Em minha direção caminhava com alguma dificuldade uma senhora preta, muito velha, curvada sobre a própria espinha, talvez no farewell de sua existência, e assim que cruzamos, esforçando-se para levantar a cabeça, com um sorriso largo, como se fosse de renovada esperança, exibiu seus claros e ainda conservados dentes, desejando-me com a voz rouca e ainda forte: - Happy Holidays ! Respondi instantaneamente do mesmo modo, mas com a emoção da advertência que há muito me faltava nesses momentos que sinalizam mudanças, ou sugerem novas fases, em que repensar a vida no ano que inicia, aquilatar razões e valores mais ocorre por imposição de marcos temporais do que por escolha desejada. Não gosto de pensar nas coisas de tempo. Penso ser a vida simplesmente um mistério. Vesti uma luva de lã em uma das mãos, enquanto com a outra segurava a cigarrilha, já pela metade, me concentrando em conservá-la assim, imutável, por mais tempo, meu propósito inicial sendo o de fumar rapidamente e retornar, antes que o frio consumisse o prazer da caminhada, ao lobby daquele hotel desprovido de qualquer charme, de qualquer caráter próprio, retrato clássico de todos os outros que abrigam pessoas de passagem em frias viagens de trabalho: executivos, funcionários, comandantes e aeromoças, e, por vezes, prostitutas, como num hôtel de passe, nenhuma dessas gentes criando vínculos com as paredes que tão somente as acolhem na circunstância inusitada. Ocupava-me em preservar a cinza na ponta da cigarrilha, impedir que ela caísse, arrependido por não haver trazido um charuto, como faço de hábito, e por ali andar mais tempo. Algo me chamava a prosseguir no percurso a esmo pelas ruas de Jamaica. Me afundei umas dez quadras. As casas eram muito parecidas, construídas dentro de um programa habitacional ao estilo americano, provavelmente destinado a pessoas de baixa renda. Diferiam entre si apenas por um puxado a mais, ou a menos, uma sacada que se estendia para fora da fachada, ora à direita, ora à esquerda, de modo a quebrar a monotonia de um projeto sistematizado, calculado a centavos de dólar, fundido num orçamento restrito. As decorações de Natal ainda estavam lá, esquecidas sobre os jardins, ressequidas pela nevasca de dias antes, todas elas constituídas de figuras aramadas, envoltas por fios cravejados de minúsculas lâmpadas, representando renas, reis magos, pastores, o Menino Jesus, Santa Claus... E como era dia cedo, aqueles adornos portavam algo de esquisito, algo de ridículo, que somente à noite luzes acesas lhes poderiam conferir algum sentido estético ou lógico. Às portas pendiam as tradicionais meias de Papai Noel, ao lado de placas indicativas com os nomes dos habitantes daquelas propriedades: Herrera, Alvarez, Sanchez..., hispânicos, em sua maioria, mas os poucos que se viam às ruas eram pretos. Cercas. Havia cercas que meavam aqueles lotes, tinham não mais de um metro e cinquenta de altura, tecidas em telas uniformes, e havia cercas dando às calçadas, mas não eram divisórias fundadas para impedir a entrada de intrusos, senão - pensei - tinham a finalidade de demarcar virtuais territórios de posse. Grades. Havia grades às janelas de algumas casas, e eram obstáculos cujo sentido ainda não saberia decifrar, porque não estavam em todas as aberturas, mas apenas em algumas delas, as das fachadas, visíveis ao passante casual, como a anunciar impenetráveis fortalezas pessoais. O frio recrudesceu sob a densa sombra projetada por uma nuvem que cobriu as ruas, que varreu de vez o sol de Jamaica, sinalizando a chegada da neve que viria outra vez, agora sim, como o golpe de misericórdia sobre os pedaços de grama, sobre os jardins agonizantes, sobre as decorações de Natal que têm o seu tempo, sobre a vida que escoa em estertores que ninguém ouve. A cigarrilha apagou à primeira lufada de vento. Vi suas cinzas se dissipando no ar. Não caíram ao chão. Vesti com pressa a outra luva, meti as mãos no bolso, dobrei-me sob o casaco e fugi apressado de Jamaica.

5 de janeiro de 2008

sexta-feira, 11 de junho de 2010

O MERIDIANO DE SÃO MARCOS, ou " O paradigma da Temporalidade "

Estava lá, sobre a parede. Eu vi. O relógio de São Marcos, marcando as oito e meia. Aos lados e embaixo dele, outros oito com os nomes de capitais: Tóquio, New York, Roma, Moscou... Então percebi que me encontrava numa metrópole. Num átimo, lembrei da Catedral de São Marcos, em Veneza, talvez pelo insistente vício em valorizar o que está longe de mim, no exterior, na Europa principalmente. E então me dei por ridículo, viajante desconhecedor do mundo, e, mais do que isso, ignorante da hora basilar da Humanidade. Foi assim que tudo aconteceu numa simples parada num posto de abastecimento, ao lado do qual se encontrava um hotel, e nele uma lanchonete na qual eu fatalmente iria encontrar um pastel, como de hábito faço quando tomo a estrada e paro para abastecer o carro. Parei de me preocupar com a própria natureza do pastel, quero dizer, se ele era feito na hora ou se era do dia anterior, porque o bom pastel – sempre – é aquele feito um dia antes, e que se come frio, suspendendo-o do prato com o auxílio de um guardanapo de papel que absorve aquela gordura natural de cor âmbar, alastrando-se em densas gotas sempre para um dos cantos do pires. E que não é de todo desprezível, pois confere à iguaria especial gosto e aroma. Este é o bom pastel. Mas, como eu dizia, era um mero posto de gasolina onde o frentista me aconselhou o hotel de estrada, onde pedi o pastel, já sentado ao balcão de onde, antes de ser servido, levantando os olhos ao acaso, deparei com o luminoso painel dos relógios no meio do qual se achava – hoje eu permito-me dizer – o da Capital do Tempo. Para quem ainda não descobriu o Paradigma da Temporalidade, em torno de São Marcos orbitam lugarejos menos luminares como Caxias do Sul, Ana Rech, Farroupilha, Lajes e Vacaria, e, num raio maior, cidades mais importantes que estas, mas ainda inferiores a São Marcos, como Porto Alegre, Montevideo e Buenos Aires. Perguntei ao dono da lanchonete como ele tinha tido aquele discernimento, isto é, a idéia do painel de relógios, ao que ele simplesmente respondeu: - Vi num lugar e copiei - sem dar-se conta da profundidade de minha pergunta e, menos ainda, da inocência de sua resposta, como observaria Bion, apenas com palavras mais contundentes. Pois foram os ingleses que copiaram São Marcos. E não só ele, o atendente da lanchonete, ignorava o fundamento daquele marco temporal, que faz jus ao nome do próprio Marcos, evangelista padroeiro de todos os marcos do Universo ( esta apenas uma interpretação minha, de caráter semiótico, quase psicanalítico ), mas também eu que, me entregando ali ao desvendar completo da sabedoria, descobri não estar simplesmente em frente de um conjunto de relógios, o de São Marcos no meio, mas sim diante da Hora Basilar da Humanidade, erroneamente, e desde sempre, por uma convenção qualquer, localizada em Greenwich, na Inglaterra. Que se danem os britânicos ! Por que não ? -, me indaguei abençoado por me encontrar ali em São Marcos, onde, graças ao tanque vazio do carro, à fome passageira, à minha cultura sobre pastéis de estrada e ao conselho do frentista, e lembrando-me do amigo Leonardo Francischelli, que há tempos apregoava a importância geopolítica de sua terra natal, graças a tudo isso, descobri que me encontrava onde Deus fundiu o Cronômetro do Mundo, o Meridiano de São Marcos, que por essas baldas de nosso complexo de inferioridade relutamos pusilânimes em aceitar como verdade.

Para o me amigo Leonardo Francischelli em seus 70 anos astúcia.

domingo, 6 de junho de 2010

de Eça de Queiroz

 
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O QUE SE ESPERA DOS POLÍTICOS

Reproduzo aqui um texto escrito por mim em outubro do ano passado.
Hoje, lendo a Revista VEJA, em relaçao à qual tenho lá muitas críticas, deparo com um artigo sobre o Agaciel Maia voltando à cena. Definitivamente, no Brasil não é muito difícil ser profeta.

Pesquisas recentes, quando perguntam ao eleitor o que ele espera dos políticos, apontam em grande parte a mesma resposta: - espero que eles sejam honestos. Esta resposta, reveladora da inquietação dos eleitores num país em que a roubalheira grassa, passou a representar um desvio do verdadeiro objetivo dos pleitos, qual seja, o de escolher homens e mulheres capazes tecnicamente de praticar a gestão publica com competência, conhecimento, planejamento e, fica implícito, também com honestidade. A honestidade não representa um fim em qualquer processo. Ela é apenas um meio. Entretanto, como quem não tem cão caça com gato, supõe-se que, pelo menos sendo honesto o político, já se tem meio caminho andado. A resposta mais ouvida nas pesquisas revela uma inverdade, pois nem todos os políticos são desonestos – mas trata-se de uma inverdade na qual se acredita quando se tem um amplo cenário de falcatruas protagonizadas pelos seres políticos de todos os poderes. Praticamente um terço dos congressistas enfrentam processos criminais, muitos deles já condenados até, mas continuam em seus postos, como se nada tivesse acontecido, e, mais ainda, habilitados a concorrer nas próximas eleições. Lembram do Agaciel Maia ? Pois bem, ele vai concorrer para deputado federal, e diz-se aqui em Brasilia - onde estou neste momento -, que tem grandes chances de vencer por larga margem, pois sua sustentação na campanha dar-se-á por corporações poderosas e interessadas em sua condução ao posto do qual poderá contribuir, de alguma forma, para o restabelecimento do trem da alegria do Congresso Nacional, o qual, aliás, há muito perdeu os freios. Não se pensa em competência. O exame do ENEM que o mostre. Tantas tecnologias e cuidados para reservar-se o sigilo de uma prova destinada a milhões de brasileiros, e ela é furtada por um simples funcionário da gráfica responsável por sua impressão. Não se pensou na árvore, mas apenas na floresta, ou vice-versa. A coisa foi protagonizada também por um dono de pizzaria, o que leva a crer que o imbroglio todo vai dar, como de praxe, em pizza. Depois que todos pensávamos que o Sarney estava encurralado, e que ele não tinha mais saída, e que ele iria cair de vez sob o peso de sua esperteza, foi ele na verdade quem nos encurralou a todos. “ Nunca antes na história deste pais “ se consolidou tanto a razão para que os cidadãos eleitores se contentem com uma única esperança: a de que os políticos sejam - ao menos - honestos.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

de Baudelaire

"Os sentimentos profundos têm um pudor que não quer ser violado".

Esta citação de Baudelaire vive em mim. Trata dos mais recônditos sentimentos que temos: nossos mistérios, nossa intimidade indevassável.É por isso que ela não me sai da cabeça.

terça-feira, 1 de junho de 2010

MARQUES DE SADE

 
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SADE, por SADE

Em Justine, ou Os infortúnios da Virtude, Sade apresenta de forma pragmática a lógica da natureza

:“ ...que se o mal persegue o bem, e se a prosperidade acompanha quase sempre o mal, a coisa estando igual aos olhos da natureza, é infinitamente melhor tomar partido entre os maus que prosperam do que formar fileiras com os virtuosos que fracassam. ”

Sobre SADE, os pensadores

“ É uma das grandes virtudes poéticas desta obra a de situar o panorama das iniquidades sociais e das perversões humanas à luz das fantasmagorias e dos terrores da infância. ”
André Breton

“ Sade foi um revolucionário, porque permitiu-se escrever sobre aquilo que não se podia falar, nem contar ”
Camile Paglia

“ Sade é um caso. Tudo nele é imenso e único, inclusive as repetições. Por isso nos fascina e alternadamente nos atrái e nos repele, nos irrita e nos cansa. É uma curiosidade moral, intelectual, psicológica e histórica. Sua vida não é menos extraordinária que sua obra. Foi preso por suas idéias; foi incorruptível e independente em matéria intelectual ( às vezes faz pensar Giordano Bruno ); enfim, foi generoso, até mesmo com seus inimigos e perseguidores. O filósofo do sadismo não foi aquele que vitima, mas uma vítima, o teórico da crueldade foi um bondoso. ”
Octávio Paz

segunda-feira, 31 de maio de 2010

SADE, INCOMPREENDIDO

 
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SADE, 270 ANOS, AMANHÃ

Parece a mim que todo o legado de Sade foi da derivação de seu nome, a palavra sadismo. Sempre me pergunto sobre este fenômeno reducionista, visto que Sade foi importante pensador de seu tempo. Tive a oportunidade de ler uma boa parte de sua extensa obra nos originais numa época em que mergulhei nos clássicos à guisa de aprender o idioma francês. Lembro que entao comprei uma enciclopédia de clássicos frabceses, na verdade uma ediçao muito antiga, bem anterior a 1958, ano em que, vencida a censura, publicões de Sade puderam pela primeira vez vir à luz das edições. O nome do escritor nem constava ali. Sade,como dizia, foi um pensador, um filósofo incompreendido, como o é até hoje pela moral do establishment, da Igreja e até da psicanálise. Sua bibliografia não é linear, assim como seria uma exposiçao de um só artista, porém com os mais variados estilos de quadros numa mesma sala. O que nele prepondera é o conteudo veementemente libertário. Em "Os cento e vinte dias de Sodoma", também conhecido como "A Escola de Libertinagem", produziu um texto substancialmente escatológico, pesado e indigesto. Já em "Os crimes do Amor" trata com maestria do tabu incestuoso. "Justine",ou "Os Infortunios da Virtude", poderia ser tomado como uma obra religiosa que prega a máxima de que quanto mais bem se faz, mais se é punido, o que não deixa de ser uma verdade em muitos casos. Já em "A filosofia do Boudoir", erroneamente traduzida para o português com "A filosofia de Alcova", Sade expressava corajosamente em seu tempo aquilo a que hoje podemos livremente assistir pela TV. É que hoje não era como d'autrefois, eis a diferença. Foi um homem corajoso, passou a metade de seus dias na prisão, e diz-se - não há provas concretas sobre isso - que teria sido o último ocupante da Bastilha antes de sua queda que simboliza a derrocada da realeza. Aconselho a leitura de Donatien-Alphonse-François de Sade, onde se pode compreender por que o Marquês falido foi um boi de piranha à mesma época em que se consagrava Choderlos de Laclos, inatacável militar de prestígio e célebre autor de "As Ligações Perigosas", que escrevia sobre o mesmo assunto, apenas de forma polida e diciplinada. Acho que foi Jean Paulhan, estudioso de Sade, quem escreveu que o tempo farã justica ao malogrado autor.

domingo, 30 de maio de 2010

LIVRO DE PEDRA

 
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NÃO FALAREI SOBRE PEDRAS

Saiu recentemente o belíssimo "Livro de Pedras", da artista pástica Ena Lautert, uma jovial e incansável senhora de oitenta e poucos anos, artista que começou sua carreira há uns vinte e cinco anos, e cujo primeiro texto sobre seu trabalho tive o orgulho de apresentar. Passado este quarto de século, Ena me convidou mais uma vez para escrever em seu livro.

Não falarei sobre pedras

Sobre elas se assentam as casas, as pontes e as catedrais. Assim, as pedras tomaram o significado de fundamentos sólidos, emprestando, por extensão, suporte à metáfora, como no caso de Ena Lautert. Quando a artista começa sua carreira, em 1982, portanto na meia-idade, já compensa o tempo que, pela rápida aceitação de seu trabalho, não poderia dar como perdido, ou desperdiçado. - Por que não iniciei antes ? - se perguntaria. Mas não foi esta a indagação que ocorreu a Ena. Artista de invejável tenacidade, em sua arte tardia imprimiu toda a pulsão de vida sem imaginar o veloz desdobramento de uma obra intensa. Apenas começava. Não era crível supor que a crítica e o meio dos artistas fossem absorver com tanta admiração o trabalho daquela senhora, com expectativas sobre o seu rumo, a cada etapa de sua evolução. Tampouco se fixou a artista em produzir impactos com o recurso de alguma técnica ou com o artifício de um modismo, de uma tendência. Nela sempre esteve, isso sim, a inevitável eclosão do conhecimento - em parte inconsciente - acumulado numa vida de acurada atenção às coisas da Natureza, aos fundamentos da terra, aos seus destinos e princípios. Nunca é tarde. Para construir sua obra, tomou a pesquisa como pedra de fundação. Cedo caminhava para o abstrato, como num processo de catálise necessário que buscava expressar com maturidade algo que desde sempre se tecia em sua alma. Pouco depois do início de sua carreira, escrevi um texto sobre a artista. E hoje, passados tantos anos, com mais conhecimento sobre a trajetória que ela prenunciava, e como observador mais maduro, me visita outra certeza: Ena sempre parte do princípio, como se fosse uma iniciante, e é por este exercício permanente, embalado por uma juventude inesgotável, entretanto pouco comum a um jovem que inicia nas artes, que nos oferta aos olhos uma visão estética singular, quase única, que poderia já bastar aqui, mas que está longe de esgotar-se. Ela irá muito mais, como quem não cansa de carregar pedras, as reais e as metafóricas, explorando outros meios técnicos, além daqueles pelos quais vem incursionando: a aquarela, o pastel, a acrílica, o papel-machê, firmando-se como uma de nossas artistas contemporâneas de maior prestígio. Seu currículo, pleno de exposições citações e prêmios, é a mais evidente prova disso. Costuma-se enaltecer as pessoas que, já fora de tempo, “subvertem” a ordem das coisas, desafiam o status quo, esta expressão infeliz que nos estanca, e que nos reduz, e que nos anula, e que, por fim, nos mata. Este elogio, que em tais circunstâncias se aplica a qualquer um, não passa ao largo no caso de Ena Lautert, mas não expressaria com todo juízo o valor de sua arte tão própria. - Por que não iniciei antes ? - perguntaria a artista. Porque, simplesmente, em Ena apenas adormecia aquilo que só poderia ser depois.

sábado, 29 de maio de 2010

A PROPÓSITO DE POVOS E IDIOMAS

Sempre tive muito interesse em viajar, curiosidade de conhecer outras gentes e outros lugares. Minha primeira grande viagem a fiz em 1988, a Portugal e Espanha, onde gastei quinze dias no primeiro país e dez no segundo, rematando ainda aquela viagem com um breve giro pela Itália e pela Inglaterra.
De lá para cá fui à Europa praticamente todos os anos, às vezes mais de uma vez, e na maior parte delas à França, país onde desenvolvo um trabalho na área de curadorias de arte.
À Alemanha fui duas vezes, a primeira pouco depois da queda do muro de Berlim, e a segunda uns dois anos depois. Eu não falava nada de alemão, eu nem sequer sabia interpretar um aviso básico do tipo: horário de trens. Cardápio de restaurante, por exemplo, nem pensar em entender. O dedo indicador apontava diretamente para o termo culinário que me parecia mais esteticamente composto, o garçom fazia um gesto de compreensão com a cabeça, e fosse o que Deus quisesse.
Por isso, claro que a questão do conhecimento dos idiomas de outros países, em todas estas viagens, assumiu importância crucial, pois não há pior sensação de impotência do que a falta de comunicação humana ( em todos os sentidos, é claro, mas aqui refiro-me à que trata da falta de uma mínima capacidade na comunicação ). Assim, aprendi desde jovem, quando residi nos USA, o inglês e o espanhol, e depois, quando tinha 30 anos, enveredei pelo francês, língua da qual não conhecia nenhuma expressão sequer, além de merci et au revoir, e que passou a ser a do meu coração, ma langue preferée. Aos cinquenta e poucos, cursei italiano até alcançar proficiência no idioma.
Então, diante de um novo vazio filológico, me perguntei qual seria a próxima língua que poderia aprender. Considerando aqui e ali, sem esquecer o russo, optei pelo alemão, língua temida desde sempre, não obstante a descendência germânica por parte de minha avó paterna, Carolina Kramer.
O incentivo ao aprendizado do alemão veio, entretanto, a partir de dois episódios muito interessantes pelos quais passei.
Estando uma vez numa loja de departamento em Munique, vi uma belíssima camisa azul em liquidação, e como não sabia de qual tamanho comprá-la - porque estas medidas variam de lugar para lugar -, dirigi-me a um sisudo senhor que me pareceu ser o gerente do departamento. Aproximei-me dele depois de longas observações visuais estrategicamente coordenadas que me asseguraram de sua posição de um interlocutor possível, e perguntei-lhe: - Please, could you..., e antes que pudesse concluir com o help me, o sujeito, dono de uma grosseria tão atroz quanto um balde d’água gelada que se joga à cabeça de alguém numa madrugada de inverno, respondeu-me com um grunhido estúpido:
- NEIN !!!
Eu fiquei impressionado com aquela experiência insólita, mas depois de me recompor do choque consegui comprar a camisa com o auxílio de uma gentil funcionária que se comunicou comigo através de gestos amigáveis, todos em alemão.
Tomando uma Autobahn ( que em alemão significa estrada ) em meu caminho rumo a Praga, sem conhecer nada do idioma, eu via a cada cinco quilômetros uma placa que anunciava : AUSGANG. E me exclamava: - puta merda, que cidade grande deve ser AUSGANG, pois não param de aparecer tantos acessos a ela... Alguns quilômetros depois, percebendo que aquilo não era normal, pois eu já tinha viajado por Los Angeles, a mais longa cidade do mundo, e nunca tinha visto tantos acessos assim, lembrei vagamente que a raiz AUS traz o significado de fora, saída, lado externo, etc., e que, então, as tais placas deveriam na verdade anunciar uma saída opcional a qualquer lugar. Ademais, contribuiu para tal conclusão o meu razoável conhecimento geográfico sobre Los Angeles.
Foi assim, por estes episódios isolados, além da proximidade que hoje a idade me liga ao Ahlzeimer, com quem deverei me comunicar, foi assim que decidi aprender alemão.
Logo no terceiro semestre do curso no Instituto Goethe, imaginei que poderia começar a ler um pouco em alemão, o que de fato foi possível já com o conhecimento básico que me proporcionou aquela instituição a que eu chamo “escola de excelência”. Na Biblioteca do Goethe, retirei um pequeno livrinho - destes para crianças de dozes anos - da série Felix & Theo, e com o auxílio de um dicionário que hoje como um braço anda grudado em meu corpo onde quer que eu vá, comecei a ler uma das interessantes historias sobre Helmut Müller, Privatdetektiv. Em certo ponto de uma delas, Helmut, que é um detetive privado, encontra em seu vôo de Dusseldorf a Berlim uma moça bonita que senta ao seu lado na aeronave. Conversam socialmente, o avião aterrissa, e, enfim, despedem-se na esteira das bagagens do aeroporto.
A gente sente, mesmo lendo em alemão num nível básico do aprendizado do idioma, que naquela despedida prematura fica alguma coisa no ar; quem sabe um dia..., sonha Müller, o detetive. E eis que, ao acaso, Helmut e a moça se reencontram pouco depois na hora do check-in no balcão do mesmo hotel onde se hospedam. É claro que a conversa brutalmente interrompida na esteira das bagagens do aeroporto é retomada, desta vez com entusiasmada esperança de algum “reencontro”, pelo menos da parte de Helmut. Ele gentilmente convida a moça para jantar naquela noite, ela aceita sem relutância, eles vão ao restaurante, tomam um bom vinho num ambiente de sedução velada, e depois, já tarde, voltam ao hotel, onde se despedem. Cada um vai para o seu quarto, porque as coisas não são tão soltas como se pode pensar, pelo menos nestes livrinhos para crianças de doze anos.
Todos estes detalhes, tim-tim por tim-tim, a gente fica emocionado em ler em qualquer idioma, imaginem em alemão, língua que até há pouco não se conhecia, tão difícil e aparentemente inacessível, sabe lá quando vamos encontrar uma cara-metade na Alemanha, assim como o detetive Müller sonha ? Até que, para expressar os felizes sentimentos de Muller, o autor do livro apresenta um advérbio de modo: zufrieden. Ele escreve que Muller ist sehr zufrieden. E nesta inocência de leitor neófito da língua de Schüller, fico tomado de espanto: zufrieden ? Como poderia Helmut estar sofrido depois de emocionante e inesperado idílio ? Mas, não dá para acreditar no que estou lendo ! A professora do Goethe tinha ensinado que o importante é a compreensão geral do texto, e não da palavra em si. Mas não dá para resistir. Tomo o dicionário Langenscheidt e consulto o termo zufrieden. Ora, ora, o que ele significa ? Alívio, meus amigos, os alemães também têm sentimentos normais. Em alemão, zufrieden significa nada menos do que estar feliz, o verdadeiro sentimento de Helmut que já sonha em seu quarto de dormir, mas que a língua teuta não deixa transparecer assim tão facilmente, ao menos num lance tão rápido e óbvio. Este é o alemão com quem tenho passado os meus dias e dormido todas as noites. Ich bin sehr zufrieden !