Achei interessante este texto do Marcelo Spalding, criador do site www.aristasgauchos.com.br, de grande sucesso entre nós. Pedi a ele autorização para reproduzi-lo aqui.
Sabe quanto um escritor ganha quando um livro seu é vendido? No melhor dos casos, 10%. Digamos R$ 3,00. Sabe quantos livros um autor vende por ano. Sendo otimista, mil livros. Bem otimista. Agora faça as contas: R$ 3000,00 por ano é suficiente para alguém viver da venda de livros? Não, decididamente não. Aí as alternativas são procurar um emprego “decente”, ter uns 50 livros publicados e em catálogo ou continuar dando murro em ponta de faca. E, em todos os casos, reclamando que o brasileiro não lê, que o governo não incentiva, etc, etc, etc.
Esse cenário, com uma ou outra variação, é o mesmo para todas as artes: um artista médio, competente mas não midiaticamente reconhecido, não tem espaço para seu trabalho e é muito mal remunerado por ele. A questão é: será um problema de mercado, do artista ou do sistema? Excluindo-se os casos em que é problema do artista, entre o mercado e o sistema eu diria que o problema é do sistema.
Dizem que o brasileiro não lê, mas você sabia que o Brasil é um dos dez países que mais vendem livros no mundo? Metade são livros didáticos, metade da metade são best-sellers e ainda tem os de auto-ajuda e espiritualidade. Além disso, pesquisas indicam que o brasileiro lê menos de três livros por ano. Três! Ou seja, nossa grande missão é, também, fazer com que as pessoas leiam mais (problema de marcado), mas o principal é fazer com que as pessoas leiam os nossos livros, e não os best-sellers (um problema de sistema).
Para a livraria e para a editora o melhor é que eles leiam o best-seller. Sai mais barato para eles imprimirem e a margem de lucro é muito maior. Então nossa única saída, na impossibilidade de fazermos um best-seller, é sair desse sistema.
Há vinte anos isso seriam absolutamente difícil, embora ainda assim possível, e que os digam os poetas marginais. Mas hoje, com a internet, temos uma grande oportunidade de estreitarmos nossa relação com o leitor e tirarmos os intermediários da jogada, criando uma vantagem competitiva enorme para os nossos livros em relação aos best-sellers.
Chris Anderson, em seu livro A Cauda Longa, afirma que se a indústria do entretenimento no século XX baseava-se em hits, a do século XXI se concentrará com a mesma intensidade em nichos: "Os consumidores estão mergulhando de cabeça nos catálogos, para vasculhar a longa lista de títulos disponíveis, muito além do que é oferecido na Blockbuster Video e na Tower Records. E quanto mais descobrem, mais gostam da novidade. À medida que se afastam dos caminhos conhecidos, concluem aos poucos que suas preferências não são tão convencionais quanto supunham (ou foram induzidos a acreditar pelo marketing, pela cultura de hits ou simplesmente pela falta de alternativas." (p. 15)
Dessa forma, é mais provável que um potencial leitor de seu livro o encontre navegando na internet do que passeando numa livraria. Muito mais provável. E nesse sentido não surpreende que muitos escritores estejam disponibilizando sua obra toda, de graça, em sites e blogs, numa última e desesperada tentativa de fazer circular algo que lhes deu tanto trabalho, e às vezes custou tanto dinheiro. E adianta? Sim e não.
Realmente o usuário que entrar em seu site ou blog, se identificar com a sua temática ou conhecer você terá a curiosidade de baixar o livro e talvez até leia alguma coisa. Mas para você ter mais acessos é preciso algum tipo de divulgação, investir nisso, e para fazer qualquer investimento, por menor que seja, é preciso dinheiro, que acaba não entrando quando você disponibiliza de graça o livro. Ou seja, é pior que os R$ 3,00 do modelo tradicional, supondo que você ainda consiga vender algo no modelo tradicional.
Um princípio de resposta pode estar em outro livro de Chris Anderson, Free: o futuro dos preços (Elsevier, 2009, 270 p.). O autor traz entrevistas, dados, episódios históricos e atuais para mostrar que os preços no mercado digital estão caindo tanto que logo chegarão a zero, e viveremos uma economia do Grátis. Só que isso, ao invés de apavorar quem atua nesse mercado está se mostrando extremamente lucrativo: as empresas estão ganhando ainda mais dinheiro com isso (basta vermos o Google).
No que tange à livros, Anderson dá alguns exemplos, entre eles o de Paulo Coelho, que brigou com sua editora para colocar seu livro mais popular, O Alquimista, no BitTorrent, gerando um renovado interesse pelo autor e transformando seu novo lançamento em um sucesso de vendas maior ainda (livro que, aliás, também está disponibilizado no BitTorrent). Anderson cita ainda um autor menos conhecido, que disponibilizou seu livro para download e colocou ao lado um link para doações voluntárias no PayPal: “das aproximadamente 8 mil pessoas que baixaram o livro, cerca de 6% pagaram, com preço médio de U$ 4,20)”.
O modelo mais completo de negócios para livros (e para artes) que o autor apresenta é do Flat World Knowledge, que disponibiliza a versão digital de TODOS os seus livros gratuitamente. E como eles vivem? Vendendo livros ou capítulos do livro impressos, versão em PDF imprimível, audiolivro em MP3, e-book para e-readers e por aí vai. Isso sem contar as palestras para as quais os autores são chamados, e que rendem muito mais do que a venda de 100 livros em livrarias.
Ao final Anderson irá ressaltar que “dar o que você faz não o tornará rico; você precisa pensar com criatividade em como converter a reputação e atenção que pode obter com o Grátis em dinheiro”. Mas, acrescento eu, às vezes é muito melhor não ganhar nada do que ganhar quase nada, como ocorrem com nossos contratos com as editoras (isso quando não pagamos para editar nossos livros). Porque não esqueça que ao ser editado por uma editora você cedeu os direitos sobre seu texto para ela, e às vezes teria sido muito mais lucrativo ter esse texto contemplado num concurso literário de sua cidade, inscrito em alguma lei de incentivo ou patrocinado por uma empresa privada em busca de estratégias de investimento em cultura.
Ou seja, caro artista, não tenha vergonha de dar seu trabalho de graça. Não todo ele, parte dele. Descubra qual parte você pode abrir ao seu público a fim de cativá-lo para que ele aí sim compre a outra parte, seja algum lançamento, uma versão impressa do livro, uma palestra ou show, uma camiseta autografada. O que não podemos é permanecer refém daqueles que não querem nos vender, preferem vender os best-sellers a nós, e ainda culpam disso o leitor, que sequer teve a chance de nos conhecer.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Afinal, votar em quem ?
Este período que vem antecedendo as eleições de domingo próximo termina por ensinar várias lições. Lições antigas, mas nunca antes absorvidas em tempos de sufrágio. Num país acostumado à pouca popularidade de seus presidentes anteriores, a maior parte dos candidatos se “encostaram” na imagem do Lula, utilizando todos os meios possíveis, dos santinhos aos vídeos na TV, para angariar votos pelo efeito de osmose. Para os candidatos da situação isso ajudou. E muito. Para os de oposição foi um desastre facilmente previsível, mas que políticos oportunistas desdenhavam em seus discursos vazios. E tem sido assim que o eleitor, driblando a hipocrisia dos partidos, de suas coligações e de seus fisiologismos, dá sua resposta nas pesquisas. É por isso, por exemplo, que a Marina Silva subiu e o Serra baixou. A Marina pode ter um discurso ingênuo como o de uma freira, mas apresenta credibilidade em suas aparições, e fala coisas novas. O Serra pode ter a melhor das boas vontades, pode ser honesto e competente - como creio que seja -, mas não assumiu o discurso que lhe cabia: o discurso da oposição. O Brasil de hoje não tem mais oposição, e aqueles que a fazem sistematicamente sem apresentar propostas, são os mesmos que, ao mesmo tempo, na perspectiva confortável de conseguir votos a partir da popularidade do Lula, não se posicionam. Uma análise brilhante e bem concreta sobre este assunto foi feita pelo pensador e cientista político Demétrio Magnoli, há poucos dias num programa chamado Roda Viva. Ele dizia que em vez de Serra ressaltar que o Real foi cria do PSDB do Fernando Henrique, preferiu sublinhar que, se eleito for, vai dar continuidade aos programas do atual governo, tais como o bolsa-família, o bolsa-creche, o bolsa-não-sei-mais-o-quê... Ora, o eleitor deve pensar o seguinte: se o cara não tem mais nada a apresentar de novidade, e apenas vai dar continuidade ao que aí está, por que razão vou votar nele ? Prefiro um pássaro na mão a “meio” voando. A única chance concreta de que este discurso pudesse dar certo seria se ele viesse de alguém mais bonito do que o Lula, alguém mais sedutor, pelo menos. Mas, neste caso, o Serra, que é um homem que não ri, sempre naquela camisa azul de campanha, e nem um pouco sedutor, está longe de cativar votos. As pesquisas mostram no que está dando esta estratégia burra de campanha. Já vou dizendo que o meu voto é de Serra, mas que ele tem errado, ah, isso tem.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Bom senso prevalece
A Comunidade européia move contra Sarkozy uma moçao de censura, que poderá ter outros desdobramentos, em relação à expulsão de etnias ciganas da França. Ocorre que estes ciganos, provenientes dos paises do Leste europeu, também pertencem à Comunidade, independente de seus hábitos e pretensas atitudes no julgamento de Sarkozy. Acho que esta moção é fundamental para que não venham a prevalecer outros crimes contra a Humanidade, dentre os quais o banimento de cidadaos.
domingo, 5 de setembro de 2010
VALE-TUDO
De eleições brasileiras, sabemos todos, pode-se esperar de tudo. Na década de cinquenta, quando ainda não havia a cédula eletrônica e o eleitor escrevia sobre um papel próprio o nome do candidato de sua preferência, o “candidato” Cacareco, que era um hipopótamo do Zoológico de São Paulo, arrebanhou cerca de 100.000 votos, numa clara manifestação do desgosto popular quanto ao baixo nível dos candidatos. Foi assim mesmo, alguém lançou Cacareco a vereador e ele obteve mais votos do que o segundo candidato colocado, este autorizado, com cerca de 95.000. Passados mais de cinqüenta anos, nem tanto mudou nas cenas dos sucessivos sufrágios. Não bastasse sermos obrigados a conviver com o horário político obrigatório pela TV e pelo rádio, e assim nos darmos conta do grau de mediocridade de tantos candidatos que em pouco estarão sentados lá nas câmaras dos representantes do povo, somos ainda obrigados a votar. E com a desvantagem de não podermos, por via eletrônica, expressar nossas reais opiniões sobre o grande circo eleitoral, por exemplo, preferindo o Cacareco a tantas nulidades. E escrevo isso com certa vergonha, porque na realidade nunca anulei voto, nunca votei em branco e sei que somos responsáveis por nossas escolhas, mesmo que dentre elas figure um Cacareco. Mas o pior desta vez leva outro nome. Chama-se promiscuidade. Explico com a ajuda do Dicionário Houaiss, que entre outras definições mais conhecidas aponta para aquela que designa: 2. mistura confusa, desordenada. Chegamos ao ponto que passou do vira-casaca, figura tão conhecida da política, quando um candidato sai da extrema esquerda para a extrema direita, ou desta para aquela, indo assim, do zero ao infinito, como numa mera equação de cálculo integral e diferencial. Agora alguns candidatos, ancorados em duplicidades ideológicas - acendem simultaneamente uma vela ao santo e outra ao diabo, as duas no mesmo castiçal da incoerência. Quase todos interessadas na carona da influência da marola do presidente brasileiro - queira-se ou não - com forte aprovação popular. Os que não estão nesta barca - porque por coerência não poderiam estar - singram na nau dos desesperados. E a baixaria dos palanques assume níveis já antes vistos, mas desta vez de ambos os lados beirando a insensatez de quem acusa e a cara de pau de quem nega. É para isso que servem os dossiês que estão a merecer neste país de língua portuguesa um novo significado. E la nave và. Quanto à imprensa, é difícil encontrar um jornal ou uma revista que não expresse sua preferência por a ou por b de forma escancarada. Em alguns casos vergonhosamente, desdenhando a sabedoria do povo, omitindo notícias relevantes ou fortalecendo a invenção de outras de seu interesse próprio. Articulistas brilhantes emprestam seus talentos ao jogo sujo da promiscuidade, às vezes extrapolando vias racionais usualmente aceitas pelo bom senso comum. Então, seja qual for o resultado, tudo voltará ao statu quo ante, porque isso faz parte do jogo depois da tempestade. E la nave và...
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Crença em Deus
A única dúvida que tenho em relação a Deus, que fez as coisas todas perfeitas, é a complexidade construtiva e quase contradizente da arcada dentária do homem.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Pesquisas Eleitorais
A propósito de pesquisas, nunca é tarde para se aprender lições. A primeira é de que, em determinado instante, elas não erram, pois baseiam-se numa ciência que, apesar do que muitos pensam, não é nenhum achômetro. Chama-se Estatística, e é do ramo dos conhecimentos exatos. A segunda é de que, em nenhum instante, podemos nelas assentar as garantias de um fundamento certo e duradouro, pois que as pesquisas não pensam, não falam e não vêem. Apenas interpretam o que está no ar, inexoravelmente. Quando se falava em Dilma para presidente, há mais ou menos um ano, o assunto provocava risos. Ela estava lá embaixo nas pesquisas. Serra, lá em cima, imbatível. Pois está dando diferente agora, embora qualquer peça do destino possa ainda reverter um quadro difícil de ser mudado. Já vimos isso tantas vezes, aqui no Rio Grande do Sul em particular, quando Yeda saiu com uns cinco pontos no início das cotações dos institutos de pesquisas e chegou ao segundo turno. E venceu. Agora ela não passa dos quinze pontos, enquanto Tarso subiu e Fogaça se manteve e Yeda baixou. Os candidatos – e lembro do Brizola, em especial – têm a virtude ( ? ) de desdenhar as pesquisas quando estas mostram um quadro adverso a eles, e de assegurar a sua exatidão quando indicam que eles estão na frente. Na verdade, o que as pesquisas dizem é o que está na cabeça das gentes. E as gentes, como se diz, são volúveis – até voláteis em alguns casos. A um mês das eleições no país, muitas coisas estarão em jogo: da preferência do eleitor através do discernimento dele produzido no horário eleitoral pela TV e rádio ( uma praga bem brasileira ) às agressões comuns e odiosas dos que estão embaixo nas pesquisas, cujos discursos presenciamos por tais meios de comunicação. Se pudesse dar um conselho, diria: - Confie em pesquisas, mas não esqueça de avaliar os candidatos antes que as estatísticas assumam o lugar de seu raciocínio.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Lembranças de Paris
Encontrei, em meio a coisas que escrevo quando viajo, um pequeno texto, provavelmente produzido num bistrô qualquer após o jantar e uma garrafa de vinho em novembro de 2005. Tem a ver com estas expulsões absurdas de estrangeiros, pelo presidente Sarkozy, um pequeno da política européia.
" Sob um frio intenso e ao sabor do vento génant, os parisienses fazem pouco das condições climáticas para viver o que na verdade está dentro deles: a liberdade, a civilidade e, é claro, o charme. Em Saint Germain de Prés, na frente da igreja, uma banda de estudantes, provavelmente universitários, fazem a alegria dos turistas e dos nativos da cidade. Mães desfilam com seus bebês empacotados em roupas e metidos em sleeping bags e com gorrinhos de lã. Tudo se move rápido aqui. Paris não descansa, e por isso jamais morrerá. Mas tem um custo alto para os que estão sós. A solidão. Paris tem este dom inverso, o de desmanchar a oportunidade da alegria para o viajante solitário. É uma cidade em que não se pode estar só. É talvez a mais dura cidade para se viver em tal condição. Nada resolve este drama, nem mesmo a noção de civilidade e de urbanidade, que em parte alguma do mundo se conhece como aqui. Hoje, no metrô, entrou um jovem carregando o lastro de uma cama de solteiro, algo em torno de 1,80m por 0,90m. Como eu estava no final do vagão, encostado à parede, ofereci a ele o lugar para apoiar aquela peça. Ele me agradeceu e seguiu o meu conselho. Onde se vê isso ? O mais importante é que ninguém deu bola para o fato. Porque há gente que carrega malas, carrinhos, carroças, até. E ninguém se apercebe dos fatos que, afinal, à Paris, estão longe de ser insólitos. É que, na alma de um provinciano do RS, mesmo viajado como eu, remanesce esta parcela atávica de uma consideração sobre estes fatos que dos vivem na metrópole como se dela se nutrem. Bicicletas presas aos ferros nas entradas dos metrôs, carros estacionados em parte sobre as calçadas, gente fumando nos ambientes internos, combinações sobre regras e planos atávicos, sem palavra, sem gesto, mas apenas com o franco desejo de liberdade. Só em Paris. A mesma Paris que depois de reconstruída pelos imigrantes, sobretudo os pieds-noirs, deseja pela via política expulsá-los, não mais da cidade, mas do país em que se encontra a cidade luz. Sempre encontram motivos e razoes inexplicáveis, e inaceditáveis. Saudades de Miterrand, o Napoleão de nosso século, construtor dos monumentos dos museus, dos símbolos da pátria livre e aberta para um mundo universal".
" Sob um frio intenso e ao sabor do vento génant, os parisienses fazem pouco das condições climáticas para viver o que na verdade está dentro deles: a liberdade, a civilidade e, é claro, o charme. Em Saint Germain de Prés, na frente da igreja, uma banda de estudantes, provavelmente universitários, fazem a alegria dos turistas e dos nativos da cidade. Mães desfilam com seus bebês empacotados em roupas e metidos em sleeping bags e com gorrinhos de lã. Tudo se move rápido aqui. Paris não descansa, e por isso jamais morrerá. Mas tem um custo alto para os que estão sós. A solidão. Paris tem este dom inverso, o de desmanchar a oportunidade da alegria para o viajante solitário. É uma cidade em que não se pode estar só. É talvez a mais dura cidade para se viver em tal condição. Nada resolve este drama, nem mesmo a noção de civilidade e de urbanidade, que em parte alguma do mundo se conhece como aqui. Hoje, no metrô, entrou um jovem carregando o lastro de uma cama de solteiro, algo em torno de 1,80m por 0,90m. Como eu estava no final do vagão, encostado à parede, ofereci a ele o lugar para apoiar aquela peça. Ele me agradeceu e seguiu o meu conselho. Onde se vê isso ? O mais importante é que ninguém deu bola para o fato. Porque há gente que carrega malas, carrinhos, carroças, até. E ninguém se apercebe dos fatos que, afinal, à Paris, estão longe de ser insólitos. É que, na alma de um provinciano do RS, mesmo viajado como eu, remanesce esta parcela atávica de uma consideração sobre estes fatos que dos vivem na metrópole como se dela se nutrem. Bicicletas presas aos ferros nas entradas dos metrôs, carros estacionados em parte sobre as calçadas, gente fumando nos ambientes internos, combinações sobre regras e planos atávicos, sem palavra, sem gesto, mas apenas com o franco desejo de liberdade. Só em Paris. A mesma Paris que depois de reconstruída pelos imigrantes, sobretudo os pieds-noirs, deseja pela via política expulsá-los, não mais da cidade, mas do país em que se encontra a cidade luz. Sempre encontram motivos e razoes inexplicáveis, e inaceditáveis. Saudades de Miterrand, o Napoleão de nosso século, construtor dos monumentos dos museus, dos símbolos da pátria livre e aberta para um mundo universal".
domingo, 22 de agosto de 2010
SARKOZY ATACA, OUTRA VEZ
Mais uma vez, Sarkozy tenta desviar a atenção, dos franceses e do mundo, de seu governo maculado por algumas falcatruas. Desta feita, expulsou ciganos do país, em mais uma manifestaçao de inegável racismo. Talvez esta notícia, alvissareira para um certo grupo da França ( Le Pen e seu séquito, por exemplo ), consiga ocupar páginas de jornais que deveriam estampar o envolvimento de seu Ministro Eric Woerth e a mulher mais rica do país, Liliane Bettencourt em negociatas de privilégios esoeciais. Vale lembrar que Hitler considerava os ciganos e os negros, além dos judeus, é claro, pessoas indignas de habitarem a Alemanha. Sarkozy - que é judeu - percorre agora o mesmo caminho do ditador. Como diria Appolinaire, "les jours s'en vont, je demeure ". É uma possível leitura do refrão de " Le Pont Mirabeau ", considerada a interpretação ao pé da letra.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
mil desculpas
Caros amigos blogueiros:
Peço desculpas por minha ausência. Estou com um trabalho intenso que deve terminar neste final de semana e prometo retornas às atividades na semana próxima.
Abraços a todos.
Peço desculpas por minha ausência. Estou com um trabalho intenso que deve terminar neste final de semana e prometo retornas às atividades na semana próxima.
Abraços a todos.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
segunda-feira, 26 de julho de 2010
A moral de cuecas
Com sessenta anos na cuca, não imaginava que ainda teríamos censura na TV. Pois é. Durante o período que antecede três meses às eleições de outubro, fica vedado fazer gracinhas sobre candidatos a cargos políticos pela TV. Já não bastava sermos obrigados a assistir a estas apresentações invasivas de programas eleitorais em nossas casas, e agora vem a tal lei da mordaça. Dizem que é em nome da equidade. Pois em nome da equidade, rasga-se uma página da Constituição e suprime-se um bem maior, o da liberdade de expressão, pois humor é, antes de tudo, liberdade de expressão. Foi o humor que salvou muita gente fadada à depressão. Além disso, ficamos sem opções para compensar essas torturas, como podíamos fazer assistindo a programas cômicos que, ao menos, nos divertiam.
BRASIL, SEMPRE PIADAS
A semana começa bem com a notícia de que há um projeto tramitando na Câmara e no Senado, pelo qual “a todo brasileiro ficará assegurado o direito à felicidade ”. Ora, vejam só se isto é motivo para se colocar no papel por escrito. Felicidade é direito de todo homem em qualquer lugar do mundo. Verdade que uma multidão de seres humanos não é feliz, mas não pela falta de um decreto. Mais um decreto. O Senador Cristóvão Buarque, a quem eu admiro por ser o nosso Don Quixote da educação, é favorável, e diz por quê. Porque é um direito do brasileiro e porque outros países como os Estados Unidos têm a mesma lei. Baita explicação. Para um energúmeno, evidentemente, pois sabemos que lá nos Estados Unidos, como na Bélgica, na Alemanha e em tantos outros lugares, estas coisas escritas são prá valer. Assim, alhures, quando está escrito que a todo o cidadão caberá aposentadoria digna, educação e saúde, estas são premissas comprometidas e honradas por governos sérios. Agora, aqui, onde já está escrito na Constituição Federal que educação, saúde e outras obviedades, são direitos do cidadão, isso simplesmente não funciona. Não que fosse errado assegurar estes direitos por lei, mas porque os que já existem no papel são ignorados na realidade. Estes decretos nascidos de ufanismo inconseqüente são, ademais, marcas registradas de políticos que despontam oportunamente mostrando serviço em tempos de sufrágio. Eles gozam da nossa cara graças ao nosso modo passivo em relação a eles. Esta é a piada da semana. Aguardem que logo vem mais.
domingo, 25 de julho de 2010
OS HÁBITOS DOS OUTROS
No centro da recente polêmica sobre a proibição de burcas e afins reside um resíduo de autoritarismo inexplicável para os padrões de regras de convivência da sociedade global. Sobretudo quando esta referência abrange os países europeus como um todo. A mesma França que valeu-se da mão de obra barata e conveniente vinda da Argélia em tempos de reconstrução no pós-guerra, esta mesma França, agora, anos depois e sem nenhuma reflexão memorial agradecida, se imiscui na cultura do islamismo proibindo o uso do véu. Pois foram os islâmicos que de forma particular, contribuíram para o reerguimento de países europeus dizimados pela Segunda Guerra. Antes ainda, à época das colonizações, foram pobres imigrantes em busca de melhores condições de vida que passaram a ocupar postos menos dignos da força de trabalho, situação que desde sempre tem perdurado a olhos nus na Inglaterra, sobretudo no caso dos indianos vistos a varrer corredores de aeroportos, e africanos em banheiros públicos parisienses, também atendidos por faxineiros de outras etnias. Nestes mictórios onde fedemos todos igualmente, só não se encontram franceses. Proibir o uso da burca e do simples véu (e eu não defendo a sua conveniência quanto à estética, mas tampouco posso crer que unicamente sejam usados por expressas ordens de maridos cruéis ), me parece algo inconstitucional em qualquer país democrático que se digne a rechaçar ondas autoritárias. Seria como proibir aos judeus ortodoxos de usar aqueles trajes e chapéus pretos, e aqueles cachos ( visivelmente ridículos aos olhos contemporâneos ), e mais ainda, de fazer com que seus filhos usem indumentária assemelhada. Será que estas crianças de livre vontade se vestiriam assim ? Trata-se de culturas diversas que em qualquer lugar do mundo deveriam ser respeitadas como tradições milenares que são. O mundo não nasceu na Europa e não surgiu da América, disso todos sabemos. Não há explicação justa para tais proibições. A sensatez, entretanto, ensina que há pontos de vista diferenciados sobre a matéria. O Ministro inglês da Imigração, Damian Green, em entrevista ao “Daily Telegraph ”, na contra-mão desta ignomínia discriminatória, afirma que “ dizer às pessoas o que elas podem ou não podem usar, se elas estão apenas andando nas ruas, seria algo não britânico.” Uma digna lição de civilidade, I suppose.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
PERVERSAS POSTAGENS
Diariamente recebo e-mails com mensagens sobre crianças desaparecidas, bebês com doenças irreversíveis de nascença, pedidos de ajuda urgentes, etc. Em geral, abrindo-os, aparece uma foto referente ao assunto e logo depois outra solicitação para navegar na internet com vistas a ajudar no caso. A questão é: abrir ou não abrir estes anexos ? Confesso que eu não os abro. Nunca. Mas cada vez que isso acontece,me dá uma dor no coração, me vem um chamado à consciência perguntando se não estou sendo duro ou insensível a uma causa pública da maior grandeza. Então o momento passa, tudo volta à normalidade até que, novamente, outra mensagem chega. E a história se repete. O receio está na ameaça de vírus que são diariamente criados por mentes perversas que, numa brincadeira ingênua ou num ato intencional de má fé terminam por criar um desserviço às causas humanitárias, ao exercício livre da cidadania e da compaixão pelo outro. Fico a pensar como podem existir estas pessoas. Assim como outras que ligam canais de emergência para anunciar incêndios, acidentes e outros casos inexistentes que demandam dispêndio de energia e de dinheiro público e privado, e que por vezes resultam em falta de atendimento a outros eventos que por estas mesmas razões tornam-se fatais. E pensando mais adiante me pergunto como não conseguimos estancar, pela via da tecnologia ( já que pela da índole humana a História já provou que somos incapazes ) o avanço desta praga imiscuída na ferramenta moderna e quase vital que se tornou a Web. Então eu me encontro impotente e desumano. E não abro mensagens dentre as quais haveria com certeza muitas a que eu poderia atender como uma gota de água no oceano.
DA SÉRIE “PRESIDENCIÁVEIS”
Imaginem todos que somente um dos presidenciáveis ( aliás, uma, a Marina Silva ) apresentou a documentação completa exigida pelo TSE na inscrição da chapa. Fosse o caso de um candidato a vestibular, por exemplo, seria eliminado. A pergunta que faço é a seguinte: Como alguém que pretende dirigir um país continental como o Brasil, ou mesmo uma republiqueta de bananas, pode esquecer um detalhe como este ? Como pode ? Pois bem, aqui no Brasil, ao lado de tantas outras coisas menores, pode-se, sim, esquecer detalhes que montam a dimensão da responsabilidade de intenções de um candidato à presidência do país. Quem cuida destes detalhes das candidaturas ? Ou o que faltou no prazo exigido a oito candidatos na inscrição da disputa ao cargo de mandatário da nação, representante de todos nós ? Este fato pode ser o sinalizador de futuras atitudes, de cuidados com a coisa pública, de desvelo profissional. Enfim, um item que deve ser analisado com maior cuidado pelos eleitores.
COPA DO MUNDO E PACOTES DE BONDADES
Nunca antes na história deste país temos visto tanta disponibilidade na liberação de recursos os mais variados visando à Copa do Mundo de 2014. Num repente, aeroportos serão ampliados, hospitais reformados ou construídos, vias pública duplicadas, tudo, enfim, será feito e resolvido. A pergunta que se faz é a seguinte: por que tais recursos só aparecem agora como num toque de mágica que tira o coelho da cartola ? A resposta óbvia é que estamos em ano eleitoral, ocasião propícia para àqueles que detêm o poder, diferentemente do que recomendava Maquiavel, distribuir “pacotes de bondades” estocados e amadurecidos como bons vinhos durante a safra da gestão pública e só revelados na hora extrema, ou seja no período pré-eleitoral. Então cabe perguntar por que tais recursos não eram disponíveis antes. A resposta óbvia é de que esta técnica, assemelhada àquela do bode na sala ( primeiro a gente põe o bode, e depois, quando todos reclamam do cheiro a gente o retira ) visa a dar a impressão de que somente após duros anos de administração pública desta ou daquela ala da vez, conseguiu-se “sanar” a economia, o equilíbrio entre receita e despesa, estas coisas óbvias das quais devem entender todas as donas de casa que vão aos supermercados. E estas coisas, que não deveriam ser em nada diferentes, tanto na área privada como na pública, convencem qualquer dona de casa. Em São Paulo, o governador e o prefeito fecharam os cofres às obras de um estádio especial para sediar a Copa de 2014. Ponto para estes senhores que acompanhados de um tristonho Ricardo Teixeira numa entrevista pública ( parecia que ele tinha perdido algum parente próximo naquela hora ), distribuíram publicamente não as boas notícias da praxe das promessas vãs, mas um sonoro NÃO a um investimento que teria utilidade durante trinta dias de 2014 e depois...e depois para quê, ou melhor dizendo, para quem ? Num país de tantas mazelas, cujo governo jacta-se de feitos extraordinários enquanto o déficit da previdência recrudesce como uma doença silenciosa ( poucas pessoas estão atentas a isso ), somente para citar um exemplo mais consistente, estas distribuições de bondades deveriam ser permanentes, deveriam, ainda que menores, ser administradas não como concessões patriarcais, mas como prática saudável de administração do erário.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
quarta-feira, 14 de julho de 2010
QUEM NÃO LEVOU UM TAPA, ATIRE A PRIMEIRA PEDRA
Se entendi bem, nosso presidente Lula não tem mais nada a fazer senão aguardar o término de seu mandato enquanto fica brincando. Talvez, neste caso, porque tenha sido ele mesmo objeto de agressões por seu pai na infância – conforme filme que conta sua biografia –, acaba de assinar proposta que prevê punição para pais que aplicarem castigos físicos em seus filhos. Até aí, num sentido amplo, nada contra. Mas é que fica proibido até mesmo o tapa, sim, aquele tapa, aquele cascudo que a gente dá com vontade vez que outra quando o filho não desiste de sua impertinência. Vencida a força e o argumento da voz de comando dos pais, resta o tapa. Quantos tapas foram necessários para forjar a boa educação dos filhos ? E agora esta frescura de que não se pode dar um simples tapa. Trata-se de uma invasão de privacidade da educação, pois nem todos os pais são os mesmos, e nem todos os filhos são iguais. Há coisas que não podem ser regradas por leis escritas sobre papel e que devem ser administradas segundo o bom senso e sem exageros.
E O DIVÓRCIO, QUEM DIRIA, FOI PARAR...
Quando eu casei pela primeira vez, em 1975, havia uma forte campanha contra o projeto de Lei do Deputado Nelson Carneiro instituindo o divórcio no Brasil. Campanha da Igreja, é claro. Para se flexibilizar o projeto, atenuou-se nele o que se pôde, até que ele foi aprovado com algumas ressalvas, sobretudo no que dia respeito a um período de três longos anos durante os quais os divorciandos ( pois este seria o termo apropriado ) poderiam refletir sobre o passo que haviam dado. Aprovada a Lei, logo, logo a foram flexibilizando, até que em 1988, pela Constituinte, entrou a figura da união estável, o que refletiu nos valores tradicionais do casamento e suscitou novos protestos. De lá para cá, a coisa ficou solta. Tão solta que esta semana foi aprovada uma lei que permite ao casal o divórcio já no dia seguinte. Uma espécie de rito sumário. E aqui eu vou dar o meu palpite: embora favorável ao divórcio, acho que estes passos mais recentes em relação à separação definitiva acabaram por banalizar o casamento. E o próprio divórcio. Ah, eu acho que estou ficando velho...
domingo, 11 de julho de 2010
Assinar:
Postagens (Atom)

